Wild Cards: Entrevista com Walter Jon Williams

Publicado em: 03/01/2018


A esta altura do campeonato você já deve saber que “Wild Cards” é um romance-mosaico, ou seja, uma obra única escrita em conjunto por diversos autores, mas em que as histórias de cada um deles se entrelaçam às demais, formando uma linha do tempo de acontecimentos.

Como explicamos anteriormente, esse romance-mosaico nasceu em uma mesa de RPG, onde o George R.R. Martin mestrava uma campanha de Superworld a um grupo de amigos também escritores, cada um com seus personagens devidamente criados e, depois, exportados para o mundo de “Wild Cards”.

Então vamos dar início a uma série de entrevistas exclusivas com esses jogadores que hoje formam o Wild Cards Consortium, grupo dos escritores responsáveis por trazer os ases e curingas ao mundo.

Para começar, conversamos com o Walter Jon Williams, escritor de sci-fi, membro original do grupo de RPG de George R.R. Martin, criador dos grandes Jack “Golden Boy” Braun e Modular em “Wild Cards” e aquele que pode dizer que escreveu a primeira história para “Wild Cards” – mesmo que ela não tenha sido publicada.

 

John J. Miller à esquerda, com sua camisa do Yeoman, e Walter John Williams à direita, com a camisa do Modular Man – criadores e criaturas em foto dos idos de 1984

 

George R.R. Martin Brasil: Como foi a sua entrada no grupo de autores de “Wild Cards”?

Walter Jon Williams: Eu era parte do grupo original que jogava o RPG Superworld, então eu estava presente lá no início, com parte dos meus personagens já criados.

 

GRRM BR: Como você apresentaria “Wild Cards” a um novo leitor?

WJW: Uma série de aventuras de super-heróis, repleta de perigos e surpresas, ambientada num mundo que não é exatamente no nosso, onde os personagens envelhecem e morrem normalmente, e outros surgem para ocupar seus lugares. E, a propósito, foi criado pela mesma pessoa que criou A guerra dos tronos.

 

GRRM BR: Qual dos tríades/quartetos de “Wild Cards” é o seu preferido?

WJW: Acho que a segunda série, começando com Ases pelo mundo (livro 4) e terminando em A mão do homem morto (livro 7). A primeira tríade sofreu um pouco das dores de crescimento de quando ainda estávamos descobrindo como lidar com aquele material, mas a partir desta já tínhamos entendido aquele mundo e já estávamos escrevendo da melhor forma possível.

 

George R.R. Martin e Walter Jon Williams em 2015

 

GRRM BR: George R.R. Martin disse certa vez que, lá no início do projeto, você escreveu sozinho a primeira história de “Wild Cards”, um conto chamado “Bag lady”, que nunca foi publicado. Você pode nos falar um pouco mais sobre isso?

WJW: Os outros escritores me disseram que George tinha algumas dúvidas sobre ser possível escrever uma ficção convincente, fora dos quadrinhos, sobre super-heróis. Não tenho ideia se isso era verdade ou apenas a suposição de alguém, mas eu tinha um tempo livre para escrever e decidi provar que dava para fazer. George pode ter ficado surpreso com isso, mas os outros sabiam que eu estava escrevendo. Só que, na época em que “Wild Cards” estava efetivamente em produção, a trama evoluiu para além do mundo que escrevi em “Bag lady”, então o conto nunca entrou na série, tendo sido publicado apenas em uma das minhas coletâneas. Mas pude canibalizar umas partes dele na primeira história do Modular, “Até a sexta geração”.

 

GRRM BR: Seu primeiro conto acabou então não entrando no livro de estreia de “Wild Cards”, mas você logo escreveu “Testemunha”, que apresentou ao mundo o famoso Jack Braun, conhecido como Golden Boy. Quais foram suas inspirações para criá-lo?

WJW: Durante o período em que estávamos tentando integrar nossas histórias contemporâneas à história de Howard Waldrop ambientada em 1946 (Jetboy), propus uma timeline que ia de 1946 a 1985. Os outros itens dessa timeline foram esquecidos, mas me lembro de mencionar que os Dezessete Ases tinham sido perseguidos pelo Comitê da Câmara sobre Atividades Antiamericanas. George achou que 17 era demais – aí disse para eu reduzir para quatro e me mandou escrever a história.

 

Jack ‘Golden Boy’ Braun – criação de Walter Jon Williams

 

GRRM BR: “Testemunha” mostra a ascensão e queda dos Quatro Ases. Como foi criar uma das histórias mais celebradas de “Wild Cards”? E como foi a interação com os personagens criados por Melinda Snodgrass (Especialista) e George R.R. Martin (Embaixador)?

WJW: O principal problema na hora de escrever “Testemunha” foi que eu sabia demais sobre o período e o personagem. A história já é longa do jeito que foi publicada, mas originalmente era mais longa ainda, então foi preciso muito cuidado na hora de editar. Mas trabalhar com George e Melinda foi fácil. Uma vez que dividimos a história maior em três partes, estávamos prontos!

 

GRRM BR: Golden Boy, graças a sua imortalidade, é um personagem que convive com diferentes gerações de ases e curingas, o que oferece uma grande oportunidade na hora de trabalhar o desenvolvimento de sua personalidade, senso de mundo e forma de se orientar através das mudanças. Você pensou nessas possibilidades quando concebeu o personagem? 

WJW: Na época eu não visualizava “Wild Cards” como algo que duraria 30 anos, então eu não me dei conta de que eu também precisaria ser imortal para continuar escrevendo sobre Jack Braun! Mas preciso ser muito cuidadoso na hora de escolher as histórias para o Jack, pois ele é um homem completamente deslocado de sua época. Seus pensamentos e reflexos vêm de outra era, e ele sabe muito bem como a melhores intenções podem acabar em tragédia. Ele não é o tipo de personagem que está sempre pronto para agir – já foi essa pessoa no passado, e isso levou ao desastre.

 

GRRM BR: Quem você gostaria de ver interpretando-o numa adaptação para a TV?

WJW: Acho que tanto o Liam quanto o Chris Hemsworth fariam um ótimo trabalho. Mas teríamos que descobrir um jeito de fazer com que o ator não envelheça nada!

 

GRRM BR: Outro personagem que não envelhece é o Dorminhoco, criado pelo grande Roger Zelazny – que você já mencionou ser seu personagem preferido entre os que não escreve. Quais são as principais semelhanças e diferenças entre ele e o Golden Boy – levando em conta o aspecto de “evoluir junto do mundo”? Você já imaginou os dois atuando juntos em algum momento?

WJW: Tanto Jack quanto o Dorminhoco são velhos o bastante para lembrar do Dia da Carta Selvagem em 1946. Mas Jack se manteve fisicamente inalterado desde aquele dia, ao passo que o poder de Croyd é justamente mudar a si mesmo. Enquanto Jack está aposentado e leva uma vida tranquila, Croyd ainda está profundamente envolvido com o mundo de “Wild Cards”. Jack não quer novas aventuras, mas Croyd não é capaz de ficar fora da ação. E é difícil imaginar os dois atuando juntos em algum momento porque Croyd se lembra da traição de Jack durante as audiências do Comitê da Câmara sobre Atividades Antiamericanas, e seu lado paranoico dificilmente o deixaria se aliar a um traidor.

 

GRRM BR: Podemos dizer que Modular, mesmo sendo um androide, é um dos personagens que levanta mais questões sobre o sentido de humanidade. Pode falar um pouco sobre como ele foi criado?

WJW: Minhas ideias sobre Modular evoluíram à medida que eu escrevi sobre ele.  Originalmente ele era um personagem com o qual eu jogava no RPG Superworld, mas, quando comecei a escrever ficção sobre ele, precisei mergulhar mais fundo no personagem. O universo de “Wild Cards” é meio que um espelho que reflete o nosso próprio mundo, e Modular é meio que um espelho que reflete a humanidade. Como qualquer pessoa, ele não pôde escolher seus pais ou sua criação. Mas, diferente de qualquer pessoa, ele se tornou um adulto superpoderoso sem nunca ter passado pela infância. Então ele pôde perguntar aquelas questões que vêm à cabeça das crianças: Por que estou aqui? Para que eu sirvo? Existe a possibilidade de agir de maneira virtuosa sem seguir as instruções do meu criador? A jornada do Modular fez com que ele levantasse todas essas questões, e também a maior questão de todas, o mistério da morte. Ele morreu e retornou, e então levantou mais questões ainda.

 

GRRM BR: As histórias de “Wild Cards” também tocam em muitos aspectos sociais, colocando os curingas como as minorias marginalizadas e fazendo referências a episódios importantes de nossa história recente. “Wild Cards” pode ser visto como mais que uma série de entretenimento?

WJW: Histórias de super-heróis sempre têm o potencial de explorar temas como outsiders e minorias.  Existe outsider maior que, por exemplo, o Super-Homem? “Wild Cards” tem a vantagem de conseguir lidar mais diretamente com essas questões sociais – como a caça às bruxas da era do macarthismo,  mudanças sociais, intolerância religiosa, o papel das classes sociais mais baixas – do que os quadrinhos foram capazes em sua época. Como falei antes, “Wild Cards” é um espelho que reflete nosso próprio mundo, e sempre foi a nossa intenção sermos capazes de ver a nós mesmos nesse espelho.

 

Walter John Williams


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