Wild Cards: Entrevista com Melinda M. Snodgrass

Publicado em: 21/02/2018


Em janeiro demos início a uma série de entrevistas exclusivas com os autores de “Wild Cards” batendo um ótimo papo com Walter Jon Williams. Agora, a conversa é com Melinda M. Snodgrass, que, além de ter criado personagens como Zabb, Fantasia, Blaise e o icônico Dr. Tachyon, é, ao lado de George R.R. Martin, responsável pela edição dos livros. Melinda fala do passado da série, lembrando momentos divertidos da época em que tudo não passava de uma mesa de RPG, e dá pistas sobre o futuro – dizendo que algo bombástico sobre a adaptação de “Wild Cards” para a TV será revelado muito em breve.

Se você já deu o primeiro passo para dentro do universo da série, leia a entrevista agora mesmo! Mas, se precisa saber mais sobre essa fascinante obra de fantasia urbana em constante expansão, comece pelo texto neste link. E volte para cá em seguida!

Melinda M. Snodgrass em 1989

George R.R. Martin Brasil: “Wild Cards” surgiu de um grupo de RPG que jogava Superworld. Você pode contar um pouco sobre essa época pré-livros?

Melinda M. Snodgrass: Parece ainda mais apropriado falar sobre isso agora, já que foi Vic [Victor Milan, falecido neste mês] quem presenteou George com a cópia de Superworld que deu início à nossa obsessão. Geralmente jogávamos três vezes por semana na casa de John [John J. Miller] e Gail [Gail Gerstner-Miller], indo até duas ou três da manhã. O jogo se tornou tão grande e complexo que, depois de um tempo, George foi obrigado a nos dividir em dois grupos, então alguns de nós íamos jogar na casa dele, em Santa Fe, também até tarde da noite. Acredito que nossa maior aventura tenha sido atacar a fortaleza maligna do vilão de George, Dr. Dread*. Dessa vez estávamos todos juntos. Acabamos no topo de uma torre, com hordas de inimigos lá embaixo, tentando nos pegar. Toad Man*, em sua forma de sapo gigante, estava sentado na entrada, levando tiros na bunda. De vez em quando ele se mexia, deixava que alguns inimigos passassem e sentava novamente na entrada. Os que passavam eram liquidados por nossos heróis. Vic estava jogando com o Capitão Viajante e todos estávamos apavorados com a ideia de ele cometer algum erro, invocar Monster* em vez de um de seus amigos, e todos acabarmos mortos, já que ele era conhecido como o Rei Trapalhão. Eu estava impedida de usar meus poderes, pois não tinha permissão para matar, e Dr. Dread tinha organizado seus lacaios de um jeito que todos explodiriam se eu tentasse controlar suas mentes. Isso já tinha acontecido uma vez, e eu não podia mais usar meus poderes. Fiquei paralisada pelo medo de matar alguém. Foi uma batalha difícil, mas as forças do bem venceram no fim, mesmo que eu não lembre exatamente como.

 

GRRM BR: Qual foi o estopim para que as aventuras do RPG virassem a série de livros “Wild Cards”? Você se lembra de algum momento marcante que possa simbolizar essa virada?

MMS: Eu me lembro do momento exato. Naquela época eu morava em Albuquerque. George vinha de Santa Fe para mestrar os jogos e, em vez de voltar às três da manhã, ficava na minha casa. Acordei para dar comida aos meus cavalos e, quando eu fazia o café da manhã, George entrou, vindo do quarto de hóspedes, anunciando que tinha descoberto um jeito de ganharmos dinheiro com nossa obsessão. Ele propôs que criássemos um mundo compartilhado e colocássemos nele alguns personagens do jogo. Em seguida, comendo panquecas de mirtilo e tomando café, conversamos por três horas e criamos esse universo. George não queria muitas histórias abordando as origens dos personagens, então pensei nos alienígenas e tive a ideia de eles estarem testando o vírus na Terra.

 

GRRM BR: Você é a responsável pelo personagem que talvez seja o mais emblemático de todo o universo de “Wild Cards” – nosso takisiano favorito, Dr. Tachyon. Como foi a criação dele, ainda lá no Superworld? O que você pode destacar sobre a transposição dele para os livros?

MMS: Eu não jogava com o Tachyon do jeito que ele acabou ficando, na verdade. A única coisa em comum entre o personagem do jogo e Tachyon dos livros é o controle mental. No jogo, em vez de médico, ele era inventor. Fazia aparelhos para serem usados por ele ou por outras pessoas nas lutas.

Dr. Tachyon, um dos personagens mais icônicos da série.

GRRM BR: Recentemente entrevistamos Walter Jon Williams sobre a criação do Golden Boy e o conto “Testemunhas”, que também envolve personagens seus. Como foi esse processo de escrita para você? 

MMS: Essa é uma das melhores coisas em se criar um mundo compartilhado. Na época eu não sabia, mas é muito parecido com estar numa sala de roteiristas de uma série de TV em que os personagens interagem uns com os outros. Eu sabia que Tachyon ia se apaixonar pela Blythe e que Walter pretendia destruir os Quatro Ases, então tudo acabou se encaixando perfeitamente.

 

GRRM BR: Outro personagem muito emblemático criado por você é o neto de Dr. Tachyon, Blaise Andrieux. Esse personagem faz com que a narrativa possa explorar ainda mais a necessidade de “reparação” de Tachyon, o que vai de encontro à personalidade maliciosa de Blaise. Como foi a criação desse personagem? 

MMS: Não costumo escrever vilões. Prefiro mocinhos, mas percebi que, por causa da longevidade de Tachyon, não tínhamos a menor ideia do que teria acontecido com ele durante seus anos perdidos na Europa. Além de vir de uma cultura em que o sexo era um direito dos homens, ele era obcecado por mulheres bonitas e adorava sexo, então parecia provável que tivesse gerado um filho. Como muito tempo tinha passado, faria mais sentido ele descobrir um neto que um filho. Foi daí que veio a ideia.

 

GRRM BR: Ainda sobre Blaise, vamos publicar em março o nono livro da série, que traz uma das passagens mais fortes de todos os livros até agora (as cenas de Blaise com Tachyon no corpo de uma adolescente). O que você pode nos contar sobre esse episódio?

MMS: Vi ali uma oportunidade de fazer com que Tachyon percebesse que sua veneração às mulheres era uma mentira. Ele, na verdade, era um homem que as usava. Além disso, eu sabia que Blaise era um psicopata e que odiava o avô, então me pareceu um jeito de trazer isso à tona. Sempre achei que os estupros eram abordados em livros de um jeito muito casual. Cheguei a ter um editor há uns anos que sugeriu que uma protagonista minha fosse estuprada, mas encontrasse um modo de perdoar o estuprador e acabasse se apaixonando por ele, o que me deixou furiosa. Eu era advogada e queria deixar claro que estupro não tem a ver com sexo. É uma questão de dominação e assédio. Eu me preparei para isso entrevistando várias mulheres que enfrentaram estupros. Minha ideia era que fosse violento e horrível, sem romantizações.

 

GRRM BR: Este ano vamos publicar também o livro 10, um romance independente escrito por você. Foi diferente escrever “Wild Cards” sozinha?

MMS: Eu já era uma romancista solo antes de escrever “Wild Cards”, então não teve nada de novo. A maior diferença foram os brainstormings com Victor e George sobre as cenas que eu queria escrever usando seus personagens. Foi muito divertido.

 

GRRM BR: Você tem alguma trilogia (ou tetralogia) favorita em “Wild Cards”?

MMS: Eu adoro o arco de Inside straight, Busted flush e Suicide Kings**. Além de serem boas histórias, tive a oportunidade de escrever com Noel Matthews, vulgo Double Helix, o que foi muito divertido. Dos antigos, acho que Ás na manga é o meu livro favorito. Na época teve força e ressonância, voltando a ser atual agora que Trump é presidente.

 

GRRM BR: Aproveitando que estamos falando ao público brasileiro, que está cada vez mais familiarizado a esse universo, como você apresentaria “Wild Cards” a um novo leitor? 

MMS: “Wild Cards” é super-heróis para adultos. Não é sobre pessoas com poderes lutando contra o crime, é sobre pessoas com poderes tentando ser humanos decentes. Também é uma visão muito real de como superpoderes podem afetar a cultura, a lei e a política. E, claro, temos os curingas, então conseguimos abordar problemas relacionados a pessoas marginalizadas.

 

GRRM BR: Como é o processo de edição de “Wild Cards”, que você divide com George R.R. Martin? Como vocês organizam a produção de tantos autores talentosos de sci-fi e fantasia?

MMS: É muito trabalhoso, mas recompensador. A maior parte do trabalho é criar uma experiência fluida para o leitor. Mesmo que existam diferentes vozes, as histórias são sempre fluidas e poderosas, e diferentes pontos de vista ajudam a explorar uma questão sob vários ângulos.

Melinda em 2013

GRRM BR: Você poderia falar um pouco sobre a sensação de ver um universo criado por tantas mãos para uma campanha de RPG entre amigos sendo adaptada para a TV?

MMS: Acho que a ficha não vai cair até eu entrar no estúdio para o primeiro dia de gravação. Estou tão ocupada planejando os próximos livros, ajudando os roteiristas e trabalhando com a Universal*** que ainda não tive a chance de sentar e saborear o momento.

 

GRRM BR: Sobre a adaptação para a TV, quem você gostaria de ver interpretando os personagens criados por você?

MMS: Quero que Brett Dalton interprete o detetive Francis Xavier Black. Minha escalação dos sonhos é Tom Hiddleston como Noel Matthews, mas nunca o conseguirei. Tachyon… não sei. Vai ser difícil. Precisa ser alguém bem bonito, mas também com um aspecto um pouco sobrenatural. Meio como os elfos dos filmes de “O Senhor dos Anéis”, só que sem as orelhas.

 

GRRM BR: Alguma novidade sobre a adaptação que você possa compartilhar conosco?

MMS: Ainda não posso dizer nada, mas acompanhe o site do George e a minha página no Facebook para um grande anúncio.

 

GRRM BR: Dr. Tachyon é um personagem que, graças à sua longevidade, acompanha a história da humanidade e vê as questões sociais serem influenciadas diretamente pelos efeitos do vírus. Sua grande diferença de outros personagens longevos, como Golden Boy e o Dorminhoco, é que ele é um alienígena, então também pode olhar para esses problemas como um “forasteiro”. Como um ponto de vista alienígena pode contribuir para a construção do papel de “Wild Cards” de espelhar nosso mundo e nossos problemas críticos? O que você acha que ele diria, por exemplo, se olhasse para o nosso mundo atual?

MMS: Acho que Tachyon ficaria horrorizado com o que está acontecendo no nosso mundo agora. A incapacidade que algumas pessoas têm de reconhecer os perigos das mudanças climáticas, do racismo, do ódio sectário e da presença de um homem tão insignificante, instável e inadequado na função de presidente dos Estados Unidos o faria formar um time de ases para tentar ajeitar as coisas. Mas é claro que às vezes isso não funciona tão bem como gostaríamos, como foi mostrado na trilogia “Committee”.

 

*Personagens que ainda não apareceram nos volumes traduzidos no Brasil e, portanto, não têm nomes em português.
** Livros que compõem a trilogia “Commitee”, ainda inédita no Brasil, publicados originalmente entre 2008 e 2009.
*** A Universal Cable Productions é a responsável pela futura série baseada em “Wild Cards”.

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