Uma temporada na Santa Fe de George R.R. Martin – por Guilherme Spada

Publicado em: 19/01/2018


Cheguei a Santa Fe, Novo México, para estudar cinema na Santa Fe University of Art and Design. Em 2013, quando decidi fazer intercâmbio nessa cidade americana, jamais poderia imaginar que aquele era o lugar onde vivia George R.R. Martin, autor da série As Crônicas de Gelo e Fogo, que, na TV, virou Game of Thrones. Ainda que todos me falassem para assistir à série de dragões da HBO, cuja segunda temporada estava prestes a começar, minha intenção estava mais voltada a Breaking Bad – cujo cenário, a cidade de Albuquerque, é tão conhecido e ficava a poucos quilometros de distância da faculdade.

O Novo México é o terceiro estado com a maior produção cinematográfica dos Estados Unidos, atrás apenas da Califórnia e de Nova York, sendo berço de filmes como Onde os fracos não têm vez, ThorSicario, além de séries como Godless e, claro, Breaking Bad. Então morar em Santa Fe por três anos e meio foi assim: viver uma grande aventura onde os maiores seriados dos últimos anos são produzidos e esbarrar com George R.R. Martin pelas ruas.

Estudar no Novo México me deu diversas oportunidades. Aprendi tanto com as aulas quanto com os sets de filmagens. Fui assistente de produção do seriado Manhattan, cujo elenco era formado por Harry Lloyd, que foi Viserys, irmão da Daenerys, em Game of Thrones, e Rachel Brosnahan, que acabou de ganhar o Globo de Ouro de Melhor Atriz pelo seriado The marvelous Mr. Maisel. Também tive um dia de estágio num filme chamado Whiskey tango foxtrot, que no Brasil ganhou o título de Uma repórter em apuros, com Tina Fey e Margot Robbie. Uma cena foi filmada na biblioteca do campus da minha faculdade – e eu estava lá! Também participei de um pequeno curta-metragem produzido pela universidade cuja estrela era Laura Harring, que interpretou Rita em Cidade dos sonhos, do David Lynch.

Mesmo que esteja localizada no meio do deserto e tenha apenas 62 mil habitantes, Santa Fe conta com o maior número de salas de cinema per capita dos Estados Unidos. Uma delas é o Jean Cocteau Cinema, cujo dono é ninguém menos que George R.R. Martin. Ele sempre adorou aquele lugar, e, após o sucesso de seus livros, conseguiu dinheiro para comprar o espaço, que havia sido fechado, transformando-o num pequeno cinema especializado em filmes alternativos e clássicos. Além de vender todos os livros de George autografados, o cinema tem um bar com cervejas exclusivas de Game of Thrones e um drink preto chamado The Night’s Watch (Patrulha da Noite). No início de toda temporada, o cinema abriga uma première exclusiva a jornalistas e convidados, onde parte do elenco comparece para a exibição dos dois primeiros episódios. Nunca tive a oportunidade de ir a uma dessas sessões, mas Maisie Williams foi uma das convidadas do ano em que eu estava lá, junto dos lobos que vivem num abrigo ali perto.

A primeira vez que esbarrei com George, porém, foi em 2015, quando eu trabalhava no Violet Crown Cinemas. Depois de me formar, consegui um visto que me concedia a permissão para trabalhar naquela área por um ano. Não consegui nada no mercado cinematográfico, mas acabei indo parar num cinema – que é administrado por um dos meus ex-professores. O Violet Crown é uma rede de exibição concentrada nas regiões de Austin e Charlottesville com um conceito diferente: como conta com bar e restaurante, você pode levar bebida e comida até a sala de cinema. Isso não parece muito distante das salas VIP aqui do Brasil, mas eles têm um menu completo com 30 tipos de cervejas artesanais. E George R. R. Martin era um dos frequentadores, sempre aparecendo com amigos e vestindo macacão preto, suspensórios e boina. Nunca cheguei a puxar papo ou pedir autógrafo, pois geralmente eu estava em serviço, mas já servi comida para ele – que sempre pedia cachorro-quente. A foto do post da entrevista deste blog com Walter Jon Williams, aliás, foi tirada lá!

Infelizmente tive que voltar ao Brasil depois de o meu visto vencer, mas nunca vou esquecer dos momentos incríveis que Santa Fe me proporcionou – dos encontros com George acima de todos eles.

 


 

Guilherme Spada é cinéfilo e cineasta formado pela Santa Fe University of Art and Design. Atualmente mora em São Paulo e escreve para o Papiro & Mint sobre filmes, livros e fotografia.


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