Sobre as influências

Publicado em: 24/10/2017


“Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer.” (Italo Calvino)

Shakespeare e J.R.R. Tolkien são autores fundamentais no percurso literário de George R.R. Martin. São pilares que não sustentam apenas As Crônicas de Gelo e Fogo, mas todo o seu universo. Tolkien começa “O Senhor dos Anéis” com um foco fechado e todos os personagens juntos. Então, no final do primeiro volume a Sociedade se dispersa e eles enfrentam diferentes aventuras.

Eu fiz o mesmo. Todos os personagens estão em Winterfell no começo das Crônicas, menos Daenerys, então eles se dividem em grupos, que acabam por se dividir novamente. A intenção era exatamente essa, dispersar, aproximar e reunir novamente.

A fantasia moderna começa com Tolkien, mas ele foi seguido por uma gama de imitadores.

Eu pensei, então: não é assim que deve ser feito. Os autores devem aproveitar a estrutura dos tempos medievais – castelo, princesas –, mas escrever de um ponto de vista atual, do século XX. Eu quis combinar essas imagens.

GRRM revitaliza os arquétipos da fantasia, mesclando-os com o espetáculo shakespeariano das elites no poder. Mas é também ficção com surpreendente apuro técnico que muito poucos escritores são capazes de realizar.

Martin também cita como uma importante influência Maurice Druon e “Os Reis Malditos”, sua série de ficção histórica sobre a Guerra dos Cem Anos. Druon utiliza múltiplos pontos de vista narrativos, por exemplo, ferramenta fundamental em A guerra dos tronos.

Processos históricos nunca me interessaram muito, mas a História é cheia de histórias, cheia de triunfo e tragédia e batalhas épicas. São as pessoas que falam comigo, os homens e mulheres que um dia viveram e amaram, que sonharam e sofreram, assim como nós. Embora alguns tenham coroas em suas cabeças, ou sangue em suas mãos, no final eles não são tão diferente de nós, e aí mora seu fascínio. Acho que ainda acredito na escola heroica, agora fora de moda, em que a história é feita por indivíduos, homens e mulheres, e pelas escolhas que cada um de nós faz, ações gloriosas e terríveis. Foi esse o caminho que escolhi em As Crônicas de Gelo e Fogo.

Nas Crônicas de Gelo e Fogo, o autor utiliza a narrativa em terceira pessoa, mas praticamente não faz nenhum comentário, não é onisciente nem onipresente, já que são os personagens os narradores da trama, com seus diferentes pontos de vista. Cada capítulo tem sua própria voz e muitas vezes apresenta diferentes ângulos de personagens e acontecimentos. Difícil saber em quem confiar, exercício interessante de se colocar no lugar do outro. Há uma tensão permanente entre evento e discurso, já que os personagens não antecipam os eventos terríveis pelos quais irão passar. Exemplo maior não há que a cena do Casamento Vermelho. Ele acaba por mostrar a história, em lugar de contar.

A densidade psicológica e a força dos personagens são fatores fundamentais para a trama, que pode dispensar a cronologia exata dos acontecimentos. Com esse modelo, também é difícil julgarmos os personagens-narradores, já que acompanhamos também suas tristezas e seus limites, suas questões internas mais íntimas e suas ambiguidades. Assim, também, nunca temos uma visão completa dos eventos, levando a um sem-número de especulações, que só ajudam a tornar o livro mais popular. Nem todos os personagens narram e têm seu ponto de vista esmiuçado. O caso emblemático do Mindinho mostra isso muito bem, e revela a ironia de Martin e sua deliberada intenção de manter o mistério. A vilania de Petyr Baelish é o verdadeiro motor por trás da trama que se inicia com a Guerra dos Cinco Reis, e ela permanece escondida. Luzes e sombras trançadas, complexidade na trama e nos personagens.

Em 1993 ele escreve ao seu agente uma carta, onde expõe alguns detalhes do projeto que está escrevendo. De lá para cá, muita coisa mudou. Os três livros viraram sete, algumas histórias mudaram completamente, mas algumas ideias estavam desde o início definidas:

Cinco personagens vão atravessar os três volumes, amadurecendo da infância à vida adulta e mudando o mundo e a si próprios nesse processo. De alguma maneira, minha trilogia é quase uma saga geracional, contando a história de vida desses cinco personagens, três homens e duas mulheres. Os cinco personagens-chave são Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen e três dos filhos de Winterfell, Arya, Bran e o bastardo Jon Snow.

Tyrion Lannister nasceu anão, e sua mãe acaba morrendo no parto. A perda da mulher e a condição do filho geram ira no poderoso pai e fundam uma relação de ódio que acaba em tragédia, com o filho matando o próprio pai. Seu nascimento, o nascimento de uma aberração, desnuda para sua poderosa família que nem tudo é perfeição, beleza e poder. O anão, que sofre todo tipo de perseguição e desamor, se transforma no personagem-leitor na obra de GRRM, e seu amor pelos livros leva a um refinamento intelectual que acaba por moldar sua história.

Tyrion Lannister é o meu personagem favorito. Ele é o mais cinzento dos cinzas. Do ponto de vista convencional, ele está do lado errado, mas você acaba tendo que concordar com algumas das coisas que ele faz, embora deteste outras. Ele é muito inteligente e espitiruoso, e isso o torna divertido de escrever.

GRRM estava com 40 anos quando começou a escrever A Guerra dos Tronos, já com uma carreira consolidada. Ele ganhou seu primeiro Hugo aos 21 anos; com 30, chegou a  publicar alguns contos e romances que fizeram sucesso, depois passou uma década em Hollywood trabalhando suas habilidades narrativas. Todas essas experiências o levaram ao seu maior projeto.

A Guerra dos Tronos capturou a imaginação de milhões de leitores pela mesma razão que Homero, Sófocles e Shakespeare o fazem até hoje. Eles desnudam nossas grandes e comezinhas questões, o eterno conflito entre o bem e o mal, o desejo e o drama, com o toque certo de densidade psicológica. E, enquanto lemos suas páginas, reconhecemos os mesmos conflitos no mundo ao nosso redor e em nós mesmos.

No livro George R.R. Martin: RRetrospectiva da obra nos deparamos com grandes personagens, questões recorrentes de amor e ódio, desejo e poder, morte e traição, tudo isso em cenários que vão de terras medievais a planetas inóspitos com descrições vívidas e detalhadas sobre lugares e situações. Encontramos um autor que não parou de escrever, de inventar e reinventar e tem ainda muitas histórias para contar. E não precisamos esperar o inverno chegar, basta ler e reler essa RRetrospectiva para compreender isso. E para se apaixonar, para sempre.


(Texto publicado originalmente no guia de leitura do recém-lançado George R.R. Martin: RRetrospectiva da obra, uma coletânea com mais de mil páginas de contos, novelas, scripts inéditos e depoimentos numa edição de luxo, de tiragem limitada e numerada.)


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