Relendo “Wild Cards: Livro 2 – Ases nas alturas” (Parte I)

Publicado em: 23/05/2018


Iniciada em 1987, “Wild Cards” é uma série que se mostra cada vez mais atual. Nela, vemos que, por mais que tenhamos alcançado diversos avanços tecnológicos desde então, em muitos aspectos (principalmente sociais e políticos) não estamos assim tão distantes da década de 1980.

Foi por isso que a editora Tor, responsável pela publicação da série nos EUA, decidiu dar início à publicação de uma série de artigos que, com esse distanciamento de três décadas, analisa os livros da série. Traduzimos o primeiro deles, escrito por Katie Rask, sobre O começo de tudo, e dividimos em quatro partes. Você pode conferi-las aquiaquiaquiaqui.

Hoje daremos inicio à tradução do texto sobre o segundo livro da série, Ases nas alturasBoa leitura!

 

O fungo espacial assassino ataca: Ases nas alturas é uma poderosa carta de amor à ficção científica

por Katie Rask

PARTE I

Em 1985, a Terra é atacada por uma horda alienígena enviada por uma imensa biomassa espacial. No nordeste dos Estados Unidos, cartas selvagens ajudam a frear o primeiro ataque da horda, porém não sem inúmeras baixas entre os humanos. Enquanto isso, a chegada da Mãe do Enxame está conectada a um culto de Maçons Egípcios, liderado pelo repugnante Astrônomo. Os membros desse culto esperam conseguir trazer a Mãe do Enxame à Terra. Você pode achar que as coisas não têm como piorar, mas, subitamente, integrantes da família de Tachyon, uma das mais importantes entre os takisianos (alienígenas criadores do vírus carta selvagem) aparecem na terra. Os mocinhos, então, devem se unir para combater os takisianos, para derrubar os Maçons e, por último, para derrotar a Mãe do Enxame.

Ases nas alturas é o segundo livro da série “Wild Cards” e foi publicado em 1987. Enquanto o primeiro relata a origem e história do vírus carta selvagem e constrói o mundo da série com pequenas histórias, cobrindo um período de tempo de 40 anos, Ases nas alturas tem um enredo unificado, para o qual cada autor faz sua contribuição, com muitos personagens se entrelaçando. Nove autores escreveram o volume, entre capítulos inteiros e segmentos interligados.

Apesar do primeiro capítulo de Ases nas alturas começar com Fortunato, em 1979, e os flashbacks do Tartaruga, uma década antes, a maior parte do livro acontece em 1985 e 1986. Deparamo-nos com figuras já conhecidas do primeiro volume (Croyd, Yeoman, Tachyon, etc.), personagens menores, mas importantes para o contexto da história (Jube), e também personagens totalmente novos (Nenúfar, Ceifador, entre outros).

Ases nas Alturas tem dois enredos principais que oscilam entre o campo da ficção científica e o da fantasia. O enredo da Mãe do Enxame é uma história padrão de invasão alienígena, mas, ainda assim, é conectada a um conto Lovecraftiano sobre o oculto. Sem dúvida, o primeiro volume de “Wild Cards” começa com um contato em primeiro grau com alienígenas e suas consequências, mas o elemento extraterrestre teve um papel muito limitado ao longo do livro. Ases nas alturas, por sua vez, reflete as inclinações à ficção científica de muitos dos seus autores. Neste segundo volume, os alienígenas estão em evidência. Primeiro, nós descobrimos que Jube, o vendedor de jornais parecido com uma morsa, é, na verdade, um observador extraterrestre que vem acompanhando a humanidade ao longo de 30 anos. Os encontros com extraterrestres conhecidos aumentam, então, para três, com o pobre homem-gafanhoto Ekkedme adicionado ao ranking ao lado de Jube e Tachyon. A essa altura, nós percebemos que, de fato, existem centenas de espécies alienígenas lançadas às estrelas: muitas são parte de uma rede capitalista, que é comandada pelo Mestre Comerciante. A mais perigosa de todas é o Enxame, uma espécie temida por todas as outras. Mais tarde no livro, somos apresentados mais intimamente à sociedade takisiana. Para nós, é um caso de família, graças às aparições da tataravó e de vários primos de Tachyon, munidos de suas naves espaciais inteligentes. Os takisianos levam nossos cartas selvagens pela primeira vez numa legítima abdução alienígena.

Quanto à Mãe do Enxame, ela caí na armadilha de ser apenas mais uma horda de insetos alienígenas, seguindo o estilo dos de Tropas estelares (e, é claro, Jogo do exterminador foi lançado em 1985, apenas dois anos antes de Ases nas alturas).

O androide Modular e seu criador Travnicek representam mais uma ode à narrativa de ficção científica, realçando a busca de um androide pela sua própria humanidade, assim como a luta por independência do seu criador. Jornada nas estrelas: A nova geração nos trouxe o androide Data no fim do mesmo ano, 1987, mas aqui o clichê homem-máquina é explicitamente inspirado nos moldes de Victor Frankenstein. Assim como com Frankenstein, o criador de Modular é verdadeiramente desumano, enquanto a criação parece ter uma alma mais humana.

Considerando que um androide é uma máquina transformada num homem, Ases nas alturas inclui uma reversão do clichê: um humano vira uma máquina. Nesse caso, isso ocorre com Ellie, a esposa de Roman, um dos braços-direitos de Astrônomo. Roman parece inconstante e bajulador ao extremo – até que você descobre que ele está com os maçons para proteger sua esposa, cuja carta selvagem a transformou num computador orgânico. As mensagens de amor digitadas de um para o outro parecem bastante modernas; então, será que “Wild Cards” foi capaz de prever relações amorosas por mensagens instantâneas, tão familiares no nosso mundo contemporâneo? Alguém lembra do ICQ? Ao contrário de um androide, Ellie tem uma alma humana e feminina, enclausurada numa carcaça de máquina:

“Jane conseguiu ver os circuitos pulsando, podia ver a textura das placas e a umidade nelas, a carne viva misturada com o maquinário rígido, morto.”

Ellie é uma curinga que eu adoraria ver novamente na série, mas, infelizmente, ela é aniquilada. Obrigada por nada, Astrônomo.

O oculto se apresenta notavelmente no segundo maior enredo, que segue os Maçons Egípcios. Existe um toque de uma força sobrenatural genuína na história dos Maçons, mas os verdadeiros adoradores do grupo são expulsos pelos carta selvagens, que adotam os elementos assustadores e sinistros da seita (assim como seu ranking de discípulos), mas eles substituem qualquer tipo de “mágica” por os poderes mais facilmente explicáveis das cartas selvagens. O alto escalão dos Maçons é um grupo nefasto, exibindo verdadeiros traços de maldade que se manifestam em assassinatos, caos, busca por poder e alegria ao ver o sofrimento dos outros. Seu líder, o Astrônomo, espera trazer a Mãe do Enxame para a Terra à moda Cthulhu.

Além desses crimes mais abomináveis, os maçons são excelentes em tirar vantagem dos que estão sós, como com Nenúfar, uma garota de cidade pequena recém-chegada numa cidade grande, é um excelente exemplo disso. Seu poder permite que ela extraia todo o líquido de uma vítima, deixando nada além de poeira, mas ainda assim ela acaba sendo traía pela sua própria inexperiência e pelas manipulações dos maçons. Antes das coisas ficarem incertas demais, uma força combinada de super ases destrói a base dos vilões no Mosteiro e uma grande parte dos Maçons numa explosão estilo Indiana Jones. Apesar do Astrônomo escapar, o Grande Ataque ao Mosteiro reúne várias personalidades de cartas selvagens num episódio fantástico e eletrizante.

E a Mãe do Enxame? Outro grupo de ases a ataca, contando também com a presença do veterano de guerra e justiceiro, Yeoman, o único limpo responsável pela derrota dela. A Mãe do Enxame é transformada em algo novo depois de ter sua mente fundida com a da calma Mai Minh, uma ás com um incrível poder de cura, que se sacrifica para salvar a humanidade. É um conceito interessante: a Mãe irracional, possuidora de um poder infinito, biologicamente fértil, combinada com a consciência de uma jovem humana, viajando pelo espaço. Yeoman se pergunta:

“Quais filosofias, quais domínios de pensamento o espírito daquela gentil budista misturado na mente e no corpo da criatura de um poder quase inimaginável teceria através dos séculos.”

Essa é uma personagem dupla que eu gostaria de ver novamente. Tragam-na de volta!

(Continua…)



                

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