Relendo “Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo” (Parte IV)

Publicado em: 20/04/2018


Nesta semana damos continuidade à releitura de Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo, escrita por Katie Rask e publicada originalmente no site da editora Tor. Se você perdeu as primeiras partes, pode conferi-las clicando aquiaqui e aqui.

 

Poderes: “Eu não sou um curinga, sou um ás!”

Outra fonte infinita de alegria e terror no universo de “Wild Cards” pode ser encontrada nos poderes manifestados por aqueles que o vírus transforma.

A vantagem de trabalhar com múltiplos autores aparece na diversidade das cartas tiradas pelos personagens. O vírus tem uma natureza infinitamente flexível, e, como resultado, os autores são capazes de exercitar sua criatividade. Alguns dos poderes são de tipos comumente imaginados, como as habilidades de voar, ler mentes ou atravessar paredes. Mas a maioria vem atrelada a uma limitação: a incrível telecinese do Tartaruga só funciona quando ele está escondido em seu casco impenetrável; todos os animais de Nova York atendem à sua protetora Nômada, que tem dificuldades ao interagir com humanos, e por isso vive nas ruas; Stopwatch paralisa o tempo, mas envelhece significativamente ao fazê-lo.

Porém, são as manifestações dos curingas que estão no centro emocional da história, trazendo sentimentos fantásticos a todo esse universo. Os curingas são os nossos feridos e lesionados – são os que têm cicatrizes, são os deficientes, doentes, são aqueles que vivem com dores crônicas e aflição. Até mesmo o mais leve toque fere a pele da bela Angelical, por exemplo. A sociedade trata essas figuras com desdém e crueldade. Eles são brutalizados, seus direitos são ignorados e, até Tachyon abrir sua clínica no Bairro dos Curingas, eles nem sequer têm espaço no sistema hospitalar americano. Com as consequências do Dia do Carta Selvagem, essas são as pessoas que perderam sua voz em um mundo que prefere fingir que sua dor nem mesmo existe. Não são os incríveis ases, com seus incríveis superpoderes, bebendo drinques no Aces High, que fazem “Wild Cards” parecer tão real, mas, sim, o terrível tratamento dado aos curingas.

Com esse primeiro volume, a série “Wild Cards” é um início extraordinário que prepara o terreno para o que está por vir nos livros seguintes, proporcionando um cenário para o vírus e as mudanças sociais e históricas que ele causa. “Wild Cards” é imensamente enriquecido por diversos autores que trazem uma diversidade de pontos de vista e ideias, todos habilmente amparados pelo editor. Ao fim, a maior riqueza do livro (e  por que ele conseguiu se destacar em 1987) é que ele representa uma variedade de épocas e vozes: ases, curingas e limpos.


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