Relendo “Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo” (Parte III)

Publicado em: 04/04/2018


Nesta semana damos continuidade à releitura de Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo, escrita por Katie Rask e publicada originalmente no site da editora Tor. Se você perdeu as primeiras partes, pode conferi-las clicando aqui e aqui.

 

Todos podem ser heróis? Até mesmo os curingas?

Um mundo como o de “Wild Cards” precisa de heróis. Martin e sua equipe de colaboradores desenvolveram o universo da série em meados dos anos 1980, quando o gênero de super-heróis passava por dramáticas transformações. Junto de Watchmen (1986) e Batman: Ano um (1987), “Wild Cards” repensou o imaginário dos quadrinhos de uma maneira nova: sórdida, sombria e cínica. Faz sentido, então, que um tema comum em “Wild Cards” seja a exploração do heroísmo em todas as suas formas.

Frequentemente, o universo “Wild Cards” trabalha a ideia do que é ser um herói ou mesmo desconstrói o conceito inteiramente. A própria estrutura do livro permite o contraste de figuras heroicas. Tudo começa com Jetboy, o herói da guerra e piloto combatente, que sobreviveu às batalhas da Segunda Guerra Mundial para acabar morrerendo num combate mortal enquanto tentava proteger o futuro de todos. Jetboy foi o último grande herói limpo – antes de sua única falha conduzir o mundo a essa nova era das cartas selvagens.

Jetboy, como o último herói do “velho mundo”, entra em contraste com o primeiro herói do mundo das cartas selvagens, apresentado no capítulo seguinte: Croyd Crenson, o Dorminhoco. Ele é infectado pelo vírus toda vez que dorme, tendo mudanças físicas e em seus poderes. Croyd não se encaixa no molde de super-herói tão bem quanto Jetboy. Frequentemente ele se torna monstruoso; fica viciado em drogas; age como ladrão e bandido. Só depois descobrimos que seus roubos dão o sustento aos seus irmãos e pais incapacitados. Anfetaminas o permitem patrulhar as ruas de Bowery para proteger sua população vulnerável de ataques. Talvez as falhas de Croyd possam ser perdoadas se levarmos em consideração que ele vive com o constante medo de tirar a Rainha Negra no baralho das cartas selvagens toda vez que dorme, assim como ele também revive o Dia do Carta Selvagem toda vez que acorda. Graças às suas variadas transformações, entretanto, Croyd torna-se tanto um curinga quanto um ás. Mesmo psicologicamente instável, Croyd permanece sendo uma figura marcante como o primeiro herói dos Curingas.

Jetboy e Croyd encontram seu oposto no capítulo subsequente, o primeiro vilão de “Wild Cards”, Golden Boy. Tudo sobre ele parece heroico, mas seu defeito fatal provoca eventos irreversíveis. Como é um garoto descontraído com boa aparência, superforça e uma áurea brilhante que o envolve (literalmente), ele se torna um membro dos Quatro Ases, que lutam pela democracia e “tudo o que é bom no mundo”.

Em 1947, seu melhor amigo é o aviador Earl Sanderson, um herói do movimento pelos direitos civis dos negros. Mas enquanto Earl lutava por cada benefício num país com grande desigualdade racial, Golden Boy tinha todas as oportunidades servidas de bandeja.

Como um herói bonito, jovem, branco e invencível, sua vida era confortável, tanto antes quanto depois do Dia da Carta Selvagem. As rachaduras na fachada desse herói ficam evidentes à medida que seu sucesso aumenta: ele é mulherengo, gastador extravagante e, por fim, prova ser incapaz de defender o que é correto. Sua maior e mais importante batalha não ocorre no campo, contra golpes ou forças inimigas. Em vez disso, ela ocorre em território seguro, num prédio governamental civilizado, rodeado pelos poderes da democracia pela qual ele ostensivamente lutou. Seu depoimento como uma “testemunha amigável” em frente ao Congresso revela que, quando verdadeiramente impotente e amedrontado, Golden Boy não é um herói, mas sim um vilão: o Ás Judas.

Os autores de “Wild Cards” falam repetidamente sobre o que significa ser um vilão, ou um herói, com Titereiro ou Súcubo, com Fortunato e Brennan, etc. O Tartaruga explicitamente expõe por que isso é importante, até mesmo quando não se tem poderes:

– Se você fracassar, fracassou – disse ele. – E se não tentar, também vai fracassar, então que porra de diferença isso faz? Jetboy fracassou, mas pelo menos ele tentou. Ele não era um ás, não era a merda de um takisiano, era apenas um cara com um jato, mas fazia o que podia.

O círculo estrutural do heroísmo aparece novamente ao fim do livro com um limpo, Brennan, no foco da história mais uma vez. Dessa vez, um personagem limpo encontra-se rodeado por curingas e ases mais poderosos que ele. Ele tenta, assim como Jetboy – mas, desta vez, vence.

(Continua…)

 


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