Relendo “Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo” (Parte II)

Publicado em: 13/03/2018


Nesta semana damos continuidade à releitura de Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo, escrita por Katie Rask e publicada originalmente no site da editora Tor. Se você perdeu a primeira parte, pode conferi-la clicando aqui.

 

PARTE II

 

A passagem do tempo

Para leitores interessados em entender o passado, o senso histórico que permeia “Wild Cards” é um dos mais notáveis e consistentes traços da obra. O livro proporciona uma visão prolongada de um mundo transformado para sempre por um único evento, com as consequências se propagando ao longo do tempo. Nossos curingas e ases habitam um país abalado por turbulências políticas e sociais, lidando com questões que não envelheceram: violência policial, repressão às minorias, protestos violentos, conflitos de classes, fracassos governamentais e a cicatrização das heranças da guerra.

A história de “Wild Cards” começa nos Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial, mas o espírito de cada era posterior inunda a narrativa. O vírus é liberado em cidades repletas de veteranos de guerra e famílias devastadas por filhos perdidos. Mais tarde, o medo devastador das listas negras macartistas alavanca a tensão em “Testemunhas”, com a Ameaça Vermelha e a Guerra Fria que se segue. O dia em que JFK morreu, tão memorável pelos que o viveram, torna-se o dia que finalmente nasce o Grande e Poderoso Tartaruga. O obstinado ativismo dos anos 60, com suas demonstrações e idealismo, dá lugar a excessos nos anos 70, e a luta dos curingas por direitos civis toma mais corpo. O livro termina nos sombrios anos 80, com o Sonic Youth fazendo uma aparição em clubes da cidade. Como pano de fundo, “Wild Cards” humaniza cada um desses períodos cruciais da história dos EUA a partir da experiência de curingas, ases e limpos.

A cultura popular histórica também está presente na narrativa. A história começa em 1946, afinal, com uma espaçonave quebrada e um alienígena no Novo México. Tachyon pode não parecer nem um pouco com um homenzinho verde do espaço, mas une a ficção científica tradicional às histórias de super-heróis populares na Segunda Guerra Mundial. A história do Tartaruga com seu amigo Joey traz à vida os nerds colecionadores de HQs da Era de Prata dos anos 60. A trama de espionagem à la James Bond da Guerra Fria aparece em “Powers”, ao passo que O Poderoso Chefão e as representações da máfia fundamentam a narrativa de Rosemary e Nômada. “Wild Cards” é uma história também consciente e autorreflexiva em seu reconhecimento à cultura pop em diversos períodos de tempo.

 

A guerra de classes e a repressão no Bairro dos Curingas

Apesar de parecer uma história sobre monstros e super-heróis, “Wild Cards” é primeira e fundamentalmente uma história sobre pessoas. Infelizmente, os curingas são tratados de uma maneira praticamente retirada de manchetes atuais. Eles são a população mais vulnerável no universo de “Wild Cards”, são vitimados e tratados como criaturas exóticas. Pela sua própria segurança, vivem juntos no distrito de Bowery. Ainda assim, são castigados pela polícia e enviados como soldados ao Vietnã em números desproporcionais para serem “buchas de canhão”. Eles são um povo assolado pela depressão e  pelosuicídio, até sua raiva finalmente explodir em violência, como a Grande Revolta do Bairro dos Curingas. Todo o nosso passado falho como sociedade vem à tona no suplício dos curingas, um eco proeminente reconhecível da vida real. Os curingas são como um espelho obscuro que reflete nossas próprias falhas.

Enquanto os curingas e sua experiência fazem contato com a longa história de repressão e direitos civis nos EUA, uma área social que “Wild Cards” não reproduz com tanto sucesso é o movimento pelos direitos das mulheres. O livro apresenta participações limitadas de mulheres e muito desequilíbrio na dinâmica entre os gêneros. Há quem imagine como os novos poderes trazidos pelo vírus teriam impactado na história do feminismo e nas experiências das mulheres. O que teria acontecido, por exemplo, se o personagem Titereiro fosse mulher?

(Continua…)


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