Relendo “Wild Cards: Livro 1 – O começo de tudo” (Parte I)

Publicado em: 26/02/2018


Iniciada em 1987, “Wild Cards” é uma série que se mostra cada vez mais atual. Nela, vemos que, por mais que tenhamos alcançado diversos avanços tecnológicos desde então, em muitos aspectos (principalmente sociais e políticos) não estamos assim tão distantes da década de 1980.

Foi por isso que a editora Tor, responsável pela publicação da série nos EUA, decidiu dar início à publicação de uma série de artigos que, com esse distanciamento de três décadas, analisa os livros da série. Traduzimos o primeiro deles, escrito por Katie Rask, sobre O começo de tudo, e dividimos em quatro partes. Boa leitura!

 

 

“Wild Cards” revela um reflexo sombrio da realidade pós-guerra

por Katie Rask

PARTE I

Ainda que seja uma história de super-heróis, a saga de “Wild Cards” começa com nosso primeiro contato com alienígenas. Em 1946, Tachyon aterrissa sozinho na Terra, desesperado para frear a liberação de um vírus que, desenvolvido por sua família no planeta Takis, causa alterações genéticas em quem infecta. Ele falha, fazendo com que o vírus caia nas mãos de um vilão que o leva aos céus de Nova York. Lá, em uma desesperada batalha aérea digna dos melhores filmes de guerra, Jetboy tenta parar o lançamento da toxina biológica alienígena. O jovem piloto sacrifica sua vida na tentativa, porém o vírus é liberado numa explosão furiosa 11 quilômetros acima do solo, caindo sobre a cidade e em seguida se espalhando por todo o planetas pelos ventos da atmosfera superior. Nesse dia, 10 mil pessoas morrem em Nova York.

Jetboy, o herói de guerra que se sacrificou para deter o vírus

Os efeitos do vírus são imediatos e devastadores, exatamente como o previsto pelos alienígenas que o criaram. Cada pessoa infectada responde de maneira absolutamente imprevisível. Entretanto, é possível prever os números: 90% dos afetados morrerão de maneira terrível, 9% serão monstruosamente transformados e 1% ganhará poderes extraordinários. A natureza arbitrária das consequências individuais faz os primeiros socorristas apelidarem o vírus de carta selvagem, uma metáfora também aplicada às vítimas. A maioria que morre tirou a Rainha Negra; os que manifestam os efeitos colaterais macabros são cruelmente rotulados de “curingas”; os poucos agraciados com poderes invejáveis são elevados à designação “ás”. Mesmo aqueles não afetados carregarão um rótulo: “limpos”.

A história da humanidade muda nesse 15 de setembro de 1946, que será para sempre lembrado como o Dia do Carta Selvagem. Esta primeira parte da série “Wild Cards” cobre o evento e suas consequências, explorando os impactos históricos, sociais e pessoais daquele dia. Mesmo que parte das das ações ocorra na Costa Oeste, em Washington D.C. ou mesmo fora dos EUA, a maioria dos eventos é centrada na cidade de Nova York. Cada história relata a experiência de um limpo, um curinga, um ás ou do solitário alienígena residente – começando em 1946 e terminando em 1986.

O horror do vírus carta selvagem

Assim como outros livros com universos compartilhados, o processo de escrita de “Wild Cards” envolve múltiplos autores. Cada um escreve um capítulo sobre o personagem que criou entrelaçando-o a um mundo repleto de figuras imaginadas por outros autores. Os capítulos são divididos por histórias curtas relacionadas a esse mundo, em sua maioria escritas pelo editor George R.R. Martin.

Para um livro composto por histórias produzidas por 14 autores diferentes, “Wild Cards” é admiravelmente consistente em tom e unidade temática. Ainda que as diferenças estilísticas sejam claras, não são de forma alguma bruscas. Os interlúdios reforçam a construção do mundo e adicionam profundidade à gama de tons do livro, seja nas histórias orais em primeira pessoa em que homens do exército precisam lidar com a chegada de Tachyon ou na convulsiva viagem psicológica de Hunter S. Thompson pelo Bairro dos Curingas. A topografia compartilhada com o mundo real fundamenta a trama e os personagens em um ambiente vívido, com destaque ao amplamente desenvolvido cenário nova-iorquino e suas cafeterias, os clubes no Bairro dos Curingas  e os monumentos em homenagem ao Jetboy. Acima de tudo, para uma narrativa que mostra mudança sociais e históricas ao longo de quatro décadas, o livro é muito bem-sucedido em se deixar conduzir pelos personagens.

Tem muita coisa a ser admirada no livro. Ele é implacável desde o início, com emoção e calafrios ininterruptos nos primeiros capítulos (protagonizados por Jetboy, Dorminhoco, Golden Boy e Tachyon). Nas histórias e eras seguintes, somos apresentados a personagens que continuarão a povoar a série pelos muitos livros que virão.

(Continua…)



                

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