Por que vale a pena ler “Wild Cards” – por Rômulo Medina

Publicado em: 15/09/2017


Hoje, dia 15 de setembro, é comemorado o Dia do Carta Selvagem (data em que, em Wild Cardsum vírus alienígena caiu na Terra e mudou tudo). Ótimo dia para iniciar a leitura da série, não?

Antes de qualquer coisa, um grande spoiler: sou fã da série. Então, em vez de vir aqui falar dos pontos positivos de Wild Cards e tudo mais, vou justificar o motivo de eu ter me tornado fã e, como todo fã em sua jornada de agregar mais seguidores à sua seita, vou tentar convencê-los dos meus motivos.

Ainda que hoje eu trabalhe na editora LeYa, minha jornada como leitor e fã de George R.R. Martin vem de antes de meu ingresso no mercado editorial: comecei com As Crônicas de Gelo e Fogo, lá nos idos de 2011, ensandecido pela série que acabava de estrear na HBO. Devorei os livros rapidamente (mais rapidamente do que deveria, e sofro há muito anos da mesma ansiedade que todo mundo por Os ventos do inverno) e depois fiquei com aquela sensação de vazio literário-existencial.

Livro aqui, livro ali, minha busca continuava incansável. Então comecei a trabalhar justamente na editora que publica no Brasil minhas tão amadas As Crônicas de Gelo e Fogo. Aí pensei: “Bem, já que estamos aqui, vamos aproveitar e dar uma olhada nessa outra série aí do Tio Martin, ver qual é e tal.”

Assim que coloquei as mãos em Wild Cards – Livro 1: O Começo de Tudo, minha fixação pela série começou.

As tramas de Wild Cards são justamente aquelas histórias de super-heróis que você gostaria de ter criado no grupo de amigos. É aquele universo que você gostaria de ter narrado para o seu grupo de RPG. E o mais legal de tudo é que, antes de virar livro, ela foi mesmo uma história criada por um grupo de amigos e narrada num grupo de RPG. E é daí que vem a autenticidade dela, entende?

É bem comum ouvirmos aquele papo de “ah, mas nem é o Martin que escreve esses livros, são outros caras nada a ver, o marketing da editora coloca o nome dele grandão para vender livro”. Cara, você não sabe de nada (e, ainda assim, passa muito longe de ser um Jon Snow).

Primeiro de tudo, recomendo a leitura deste texto, escrito pelo GRRM em pessoa.

Sacou? Não? Traduzo: é verdade que nem todas as histórias são escritas pelo George R.R. Martin. Isso porque, acima de tudo, ele é o editor de Wild Cards. O papel do editor, para quem não é do mercado editorial, pode ser meio confuso. Mas, colocando em linhas mais nerdescas, vale comparar, neste caso, ao papel do mestre numa mesa de RPG (e de fato o Martin era o mestre na mesa de Wild Cards). Você diria que o papel do mestre é pequeno numa história? Outra: Martin não cansa de falar que Wild Cards é o que ele realmente AMA fazer. Você vai desprezar aquilo de que esse cara mais gosta?

Martin, enquanto editor/mestre, é o responsável por criar as tramas de Wild Cards, enredar os personagens de diferentes autores, decidir quem entra e quem sai, o caminho que eles vão seguir, de onde partem e para onde vão, como se relacionam e, no fim, ainda tascar o bedelho em toda a história sempre que achar necessário. Tem George R.R. Martin em cada fucking canto de Wild Cards – e quem leu consegue perceber isso –, sem falar em seus NPCs (como O Grande e Poderoso Tartaruga e, meu favorito, Jay “Poppinjay” Ackroyd), personagens que são sempre escritos por ele.

A grande diferença gerada por termos outros escritores na história, na verdade, é positiva: em primeiro lugar, o extremo cuidado de GRRM com suas obras é conhecido por todos os Sete Reinos. Você acha que ele deixaria qualquer um entrar nessa turminha? São sempre escritores consagrados por seu talento em contar histórias, talento que se soma ao do Martin para gerar personagens que uma mente apenas, por mais fantástica que seja, não seria capaz de criar. Outra grande vantagem é que a narrativa POV (point-of-view), clássica das obras do GRRM, ganha ainda mais força quando, além do ponto de vista do personagem, temos o ponto de vista do escritor do personagem em contraponto ao ponto de vista de outro autor que esteja escrevendo o personagem do outro lado. Cara, é a melhor mesa de RPG em que se poderia estar.

Mas minha parada favorita mesmo em Wild Cards é a leitura que se faz de um mundo em que ases, curingas e limpos dividem as ruas (se você não sabe o que são, recomendo esse post). Um elemento fantástico, qualquer que seja, é capaz de mudanças gigantescas na estrutura social de um ambiente. Como esse elemento mudaria as nossas estruturas conhecidas? Quem seriam os popstars? Quem seriam os líderes políticos? Quem seriam os marginalizados da sociedade? E, acredite em mim, é triste e assustador como nosso mundo, apesar das diferenças, pode ser tão parecido devido ao fator humano (que é mostrado na sua visão mais dura e realista).

“Ain, Rômulo, essa série é muito grande e séries muito grandes são difíceis de acompanhar.” Ah, cara, tu ficou 25 anos da sua vida acompanhando Malhação e agora mete essa?

Brincadeira, ninguém é capaz de passar tanto tempo acompanhando Malhação. Mas pensa assim: Wild Cards é uma série que vai te seguir pela vida. São alguns livros lançados anualmente aqui no Brasil que você vai acompanhando entre suas outras leituras, de forma mais leve. Sem falar que a divisão em arcos (geralmente compostos por três ou quatro livros) ajuda bastante, funcionando como temporadas de uma série de TV. Sem pressão, camarada, vai lendo no seu tempo.

Já falei muito, e se deixarem falo mais, mas não quero que você passe seu tempo lendo este texto: vai ler Wild Cards que você ganha mais.

Rômulo Medina é da equipe de Comunicação da Editora LeYa, ás-curinga militante pelos direitos dos Dois de Paus, Esfumaçador da Igreja do Sobrevivente e fiel à Casa Baratheon.


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