O que tiramos da sétima temporada – por Ana Carol Alves

Publicado em: 05/09/2017


Game of Thrones entregou, em suas duas últimas temporadas, temas e tramas ainda inexplorados nos livros de George R.R. Martin. Assistir à série tornou-se um evento grandioso, onde o mundo todo suspende seus afazeres para discutir e dissecar os detalhes deste complexo e intrigante universo de fantasia. Isso, é claro, já não é mais novidade. Mas, este ano, a experiência foi temperada com a crescente expectativa de revelações de spoilers dos livros futuros. Quais tramas da série acabarão em Os Ventos de Inverno? O que ficará de fora? Quais detalhes serão usados? Nos decepcionaremos com a conduta de alguns personagens, como aconteceu na adaptação?

Para os grandes fãs dos livros, assistir a Game of Thrones este ano tornou-se uma experiência única, não só por conta das nossas expectativas como leitores, mas também das expectativas dos outros. Sinto que a série da HBO sempre precisou que os fãs dos livros ajudassem a audiência a engrandecer o entendimento geral sobre o universo. Explicar Game of Thrones nas primeiras temporadas era algo necessário, mas prazeroso. Hoje a série não deveria mais necessitar de explicações, já que os livros não estão mais sendo considerados há anos. No entanto, ali estão os trechos de As Crônicas de Gelo e Fogo, sempre citados em matérias de jornais, sites e revistas ao redor do mundo, preenchendo lacunas e promovendo uma compreensão geral sobre o universo proposto pela série de TV.

Em uma temporada com saltos temporais e geográficos tão contundentes, tornou-se quase impossível entender a série sem se dar o luxo de dar um Google para aprender mais sobre a geografia de Westeros. Profecias que jamais foram citadas na série tornam-se a resposta oficial para contradições de roteiro: a Casa dos Imortais, de A Fúria dos Reis, para entender as motivações de Rhaegar;  O Mundo de Gelo e Fogo, para entender bastardia, genealogia, história. Por toda a internet, pessoas vasculham entrevistas antigas de George R.R. Martin para buscar respostas sobre leis de divórcio e anulação de casamento, na tentativa de preencher espaços que não precisam e não deveriam ser preenchidos fora do universo ficcional proposto na televisão.

Mas, agora que a temporada acabou, podemos olhar para trás e analisar estes e outros aprendizados da adaptação. O que tiramos da história contada nesta sétima temporada?

Em primeiro lugar, reitero que acredito que a série de TV não irá e não deverá ser explicada com os livros. Não acredito em caminhos diferentes que irão apresentar um mesmo final, já que estamos lidando com personagens diferentes, com motivações e backgrounds diferentes, em um tempo diferente. Logo, o final não teria como ser o mesmo. Também acredito que sequências de ação deslumbrantes funcionam melhor em contexto elaborados, com tempo e oxigênio para que as distâncias entre medo e desejo, legado e perda, vida e morte, sejam mais verdadeiras, e sejam sentidas.

Quanto ao enredo geral da temporada, sinto que as relações que desabrocharam na história foram, apesar de tudo, fundamentadas em interações realistas. Os conflitos entre Jon e Sansa, Arya e Sansa, por exemplo, apesar de serem baseados em muitos problemas de lógica no texto criado por Benioff e Weiss, são cursos naturais da história, que falam muito da relação desses personagens com o mundo. Apresentar Tyrion como um estrategista falho, Nymeria se recusando a ser domesticada ou Theon impossibilitado de reagir quando confrontado com traumas físicos e psicológicos são apenas provas da natureza do universo, que sempre parece estar à deriva de nossas expectativas.

Os desdobramentos entre o encontro poético do Rei do Norte e da Rainha Targaryen talvez não tenham sido tão orgânicos quanto a história merecia, mas não há dúvidas de que os últimos Targaryen vivos teriam, indiretamente, a urgência de tentar semear uma nova linhagem.

“O amor é o veneno da honra, a morte do dever. A frase, dita por Meistre Aemon a Jon, tanto no livro A Guerra dos Tronos quanto na série, fala muito sobre a relação entre Jon e Daenerys. É também, certamente, um comentário sobre Rhaegar e Lyanna, que eram jovens demais – ela muito mais jovem do que ele – e tolos demais para considerarem a dor que causaram em sua família, sua terra, seu filho. O pai e o irmão de Lyanna viajaram a Porto Real em busca dela, e foram mortos por isso. Rhaegar teve a esposa e filhos mortos violentamente por ainda serem considerados de seu sangue. Pode ser que Tyrion também tema que o amor seja uma distração para o que realmente importa.

(Na próxima semana entra no ar a segunda parte deste texto: “O que esperar para a próxima temporada?” Aguarde!)

Ana Carol Alves é editora do o site Game of Thrones BR (www.gameofthronesbr.com). Mora em São Paulo, é formada pela Belas Artes e atualmente estuda harpa sinfônica na Escola Municipal de Música de São Paulo. Escreve sobre Game of Thrones desde 2011 e acredita que somos todos cavaleiros do verão  e o inverno está chegando.


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