O jovem George R.R. Martin

Publicado em: 19/03/2018


No princípio eu não contava minhas histórias a ninguém além de mim mesmo.

George Raymond Martin nasceu em 20 de setembro de 1948, em Bayonne, Nova Jersey. O segundo R, de Richard, ele incluiu na crisma. A ideia era diferenciar seu nome de outros George Martins famosos. Como ele mesmo comenta no RRetrospectiva, Gardner Dozois o reconhece mais tarde em sua primeira convenção de ficção científica por conta do R.R. (“ninguém esquece o R.R.”).

Desde que aprendeu a ler e a escrever, George R.R. Martin já imaginava histórias e tentava colocá-las no papel. Lia quadrinhos sem parar e ainda na escola escreveu histórias que chegou a vender para alguns colegas. Fã de super-heróis, apaixonou-se pelo Quarteto Fantástico a ponto de escrever para Stan Lee e Jack Kirby e ter sua primeira carta publicada na revista Quarteto Fantástico #20, em agosto de 1963. Ele estava prestes a fazer 15 anos e a ganhar seu segundo R quando a escreveu:

Não consigo conceber como vocês foram capazes de juntar tanta ação em tão poucas páginas. Vai ser lembrada para sempre como uma das maiores HQs do Quarteto Fantástico já publicadas, ou seja, como uma das maiores de TODAS as histórias em quadrinhos.

Ele comenta no RRetrospectiva:

O Quarteto Fantástico quebrou todas as regras. Suas identidades não eram secretas. Um deles era um monstro (o Coisa, que imediatamente se tornou meu preferido), numa época em que todos os heróis tinham de ser bonitos.

Feliz com a publicação e o retorno da revista, continua a escrever cartas e chega a reclamar de um erro de continuidade na trama:

Da última vez que vimos Fantasma Vermelho na edição #13 de Quarteto Fantástico, ele estava preso na Lua e sendo perseguido por três gorilas muito poderosos que apontavam o raio paralisante do Sr. Fantástico para ele. Agora, de repente, vocês o trazem de volta com completo poder sobre os macacos e sem dar nenhuma explicação de como isso aconteceu.

Stan Lee não só responde como ainda sugere que algum leitor poderia dar uma explicação e ganhar um prêmio de editor mais astuto do ano… Esse papel ele exerce há mais de vinte anos com maestria na série “Wild Cards”, o incrível romance-mosaico com mais de vinte volumes e uma centena de heróis e vilões escritos por diversos autores.

No primeiro ano da Marist High School, ainda pensava em ser astronauta, mas, graças à paixão pelos quadrinhos, decidiu ser escritor. Começou a escrever contos para valer e enviou para diversos fanzines, publicando seu primeiro conto no Ymir #2, “Meet the executioner”, em fevereiro de 1965, onde apresenta o personagem Manta Ray. O super-herói voltaria em 1966 em “The isle of death”, que teve sua primeira parte publicada no Ymir #5. Mas esse acabou sendo o último número da revista, e a história ficou sem final…

Foi o conto “Só as crianças têm medo do escuro”, publicado no mesmo ano e incluído no RRetrospectiva, que começou a fazer seu nome circular e lhe valeu o prêmio Alley de prata, para escritores amadores. O herói, Dr. Bizarro, morre na metade da história e desequilibra a ordem das coisas. Um recurso radical que ele voltaria a usar mais tarde em A guerra dos tronos.

Na universidade, além de jornalismo estudou história. Interessado nas tradições vikings, matriculou-se no curso de história escandinava. “A fortaleza” foi o trabalho de final de curso desta matéria. O conto, uma ficção histórica, já traz alguns elementos que ele voltaria a trabalhar mais tarde em “As Crônicas de Gelo e Fogo” – gelo, muralha e guerra.

Formas escuras num mar de gelo, as seis cidadelas insulares da fortaleza lançavam sombras ao luar – esperando. Muralhas de granito irregular se erguiam das ilhas e arrepiavam com leiras e mais leiras de canhões silenciosos – esperando. E atrás das muralhas, homens determinados se sentavam junto às armas dia e noite – esperando.


(Texto publicado originalmente no guia de leitura do recém-lançado George R.R. Martin: RRetrospectiva da obra, uma coletânea com mais de mil páginas de contos, novelas, scripts inéditos e depoimentos numa edição de luxo, de tiragem limitada e numerada.)

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