O dragão de gelo de George R.R. Martin

Publicado em: 31/08/2017


Uma das lendas mais conhecidas entre os leitores de As Crônicas de Gelo e Fogo e os espectadores de Game of Thrones dizia respeito à existência de um dragão de gelo que, em algum momento, apareceria para aterrorizar os habitantes de Westeros. Alguns diziam que o tal dragão estaria aprisionado dentro da muralha, erguida havia mais de oito mil “atrás” por Brandon, o Construtor. Outros afirmavam que o dragão se tornaria mais uma arma para fortalecer o exército do Rei da Noite, o que efetivamente foi visto no último episódio da sétima temporada, exibido em 27 de agosto, quando Viserion, morto e ressuscitado como zumbi no episódio 6, conseguiu derrubar parte da muralha com seu poderoso jato de “fogo” azul.

É certo que o dragão de gelo é uma criatura mítica que povoou as histórias contadas para as crianças de Winterfell. Mas seria Viserion um deles? Ou apenas uma versão zumbi, mais parecida com o exército de mortos? Afinal, o Rei da Noite ressuscitou um dragão morto e não tocou um dragão vivo, o que na mitologia da série faz toda a diferença quando se trata de “produzir” caminhantes brancos ou meros zumbis.

Para tentar desvendar esse enigma, vale dar uma espiada em O Dragão de Gelo, livro infantil escrito pelo mestre Martin em 1980. Sim, 16 anos antes de começar a publicar a saga As Crônicas de Gelo e Fogo o autor criou esse conto que, apesar de suas afirmações contrárias, guarda muitas semelhanças com o universo desenvolvido posteriormente.

Mas vamos à história de Adara, uma criança do inverno, nascida sob frio intenso e de pele azul clara gelada. Ao contrário de seu pai e irmãos, que eram pessoas do verão, Adara amava o inverno, principalmente porque com o frio, o dragão de gelo aparecia. Segundo o livro, “o dragão de gelo era grande, quase duas vezes maior do que os escamosos dragões de guerra verdes (…). O dragão de gelo era de um branco cristalino, daquele tom de branco tão intenso e frio que era quase azul. Era coberto de geada, de modo que, quando se movia, sua pele se partia e crepitava, tal como a crosta de neve crepita sob as botas de um homem, e flocos de geada se soltavam. Seus olhos eram claros, profundos e gélidos.”

E mais: “Suas asas eram imensas, como as de morcegos, e de um azul-claro translúcido (…). Quando o dragão de gelo batia as asas, os ventos frios sopravam e a neve rodopiava e precipitava-se, e o mundo parecia encolher e estremecer (…). E quanto o dragão de gelo abria a bocarra e exalava, não era fogo que saía, o fedor sulfuroso e ardente de dragões menores. O sopro do dragão de gelo era frio.”

Como podemos ver, o poderoso zumbi-Viserion guarda semelhanças com o dragão de Adara, mas também características que em nada lembram o personagem do texto infantil. Na época em que se passa a aventura, a convivência entre humanos e dragões era comum. O livro deixa escapar que o mundo passava por um longo conflito, o que nos remete ao período da Dança de Dragões, guerra civil que assolou Westeros dois séculos antes dos acontecimentos de A Guerra dos Tronos. Sabemos também que os dragões foram extintos, mortos por humanos ou mesmo por outros dragões, sendo os ovos fossilizados de Daenerys os últimos remanescentes da espécie.

Nos resta aguardar para verificar qual será o real poder de destruição de Viserion, inclusive no provável enfrentamento com Drogon e Rhaegal. Já para descobrir se o dragão de gelo de Adara é tão cruel contra os homens quanto a aquisição recente do exército dos mortos, só mesmo lendo o livro. Vale sobretudo para os fãs terem contato com a linguagem desenvolvida por Martin para fisgar o público mais jovem, mas não se engane: os dramas, conflitos e reviravoltas que fizeram a fama de nosso autor favorito estão lá, em um título que tem tudo para se tornar um clássico.


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