Melantha, finalmente do jeito certo – por George R.R. Martin

Publicado em: 12/12/2017


Minha novela “Voadores da Noite” (presente em George R.R. Martin: RRetrospectiva da Obra) conta a história de um grupo de cientistas que fretam uma nave para levá-los às profundezas do espaço em busca dos volcryns, uma espécie alienígena tida como mítica. Na minha história original, só três personagens têm nome – Karoly d’Branin, o líder da expedição; Royd Eris, o misterioso proprietário e capitão da nave espacial Voadora da Noite, que nunca é visto exceto como holograma; e Melantha Jhirl, um “modelo aperfeiçoado”, geneticamente modificado, do planeta Prometheus, que é maior, mais rápida, mais inteligente e mais forte que um humano normal da Terra.

Foi assim que a descrevi:

Jovem, saudável, ativa, ela tinha uma vibração que os outros não alcançavam. Era grande em todos os sentidos – uma cabeça mais alta que qualquer outro a bordo, corpo largo, seios grandes, pernas compridas e fortes, músculos que se moviam suavemente sob uma pele preta como carvão reluzente. Seus apetites também eram grandes. Ela comia o dobro de qualquer um de seus colegas, bebia muito sem jamais parecer embriagada, se exercitava todos os dias durante horas com equipamentos que levara a bordo e instalara num dos depósitos de carga. Na terceira semana, tinha feito sexo com todos os homens a bordo e com duas das mulheres. Mesmo na cama, ela sempre era ativa, deixando exausta a maioria dos parceiros. Royd a observava com um interesse ardente.

– Sou um modelo aperfeiçoado – ela lhe disse uma vez enquanto se exercitava nas barras paralelas, suor brilhando em sua pele nua, o cabelo preto comprido preso numa rede.

Vale registrar que eu provavelmente encontrei o nome Melantha em um daqueles livros do tipo Nomes para Seu Bebê que sempre tenho à mão para batizar meus personagens. O nome significa “flor negra” ou “flor escura”.

Quando “Voadores da Noite” foi publicado pela primeira vez, em 1980, a capa arrebatadora do Paul Lehr mostrava um volcryn. Aumentei minha história de 23 mil para 30 mil palavras para a publicação na série BINARY STARS, mas a capa não tinha ilustração. Alguns anos depois, organizei uma nova coletânea de contos para a Bluejay Books que incluía “Voadores da Noite” como conto-título (a coletânea também trazia uma novela minha mais antiga, “Uma Canção para Lya”, vencedora do Hugo, e um punhado de outros contos).

Nessa capa, Melantha Jhirl foi desenhada pela primeira vez. Vejam só:

Percebem o problema?

Verdade seja dita, essa capa tem vários problemas. A arte é medíocre, para ser bondoso (ainda que eu já tenha visto piores). A cena não faz sentido; a mulher parece estar de pé no espaço, do lado de fora da nave, sem capacete. Acho que a ideia era remeter a um imaginário gótico, onde uma governanta foge da casa abandonada ao fundo e uma janela brilha na escuridão. Aqui você tem uma porta cintilando na escuridão do espaço. Mas, se essa foi a intenção… bem, vamos dizer apenas que não funcionou.

Tudo isso são detalhes. O grande problema, claro, é a raça da personagem retratada. Essa não é Melantha Jhirl, minha supermulher de pele escura geneticamente modificada, DE JEITO NENHUM.

Eu não fiquei satisfeito. Ressaltei que Melantha era negra. Meu editor reconheceu o problema, mas se recusou a fazer qualquer mudança. “Você quer que seu livro venda?”, ele me perguntou. Respondi que, claro, queria. “Bem, se a gente botar uma mulher negra na capa, ninguém vai comprar.”

Para contextualizar, essa conversa aconteceu em 1985. No ano anterior, as vendas do meu quarto romance tinham sido desanimadoras, e a Simon & Schuster, que tinha publicado meus quatro primeiros livros pelos selos Timescape e Poseidon Press, me demitiu. Eu não estava numa posição de poder. Na verdade, eu estava agarrando minha carreira pelas pontas das unhas. Ainda assim, segui protestando. A declaração do editor me chocou. Eu não podia acreditar no que estava ouvindo: afinal de contas, aquele era um livro de ficção científica, os fãs que eu conhecia queriam ler livros com elfos, vampiros e marcianos de pele verde na capa. “O que te dá essa certeza?”, perguntei. E ele disse que era uma coisa que “todo mundo sabia”. Além disso, eles já tinham pago por aquela capa.

Chegou uma hora que acabei cedendo. VOADORES DA NOITE acabou sendo publicado em brochura sem mudanças naquela capa. Pouco tempo depois, a Tor adquiriu os direitos da versão pocket e reimprimiu a coletânea com a capa inalterada. (Quando o filme foi lançado, Tor relançou uma edição com a arte do filme. Essa versão não mostrava Melantha.)

Eu estava insatisfeito com a representação de Melantha em 1985. Com o passar dos anos, fiquei mais insatisfeito ainda… com a capa e comigo mesmo. Não, eu provavelmente não tinha poder para fazer com que mudassem a capa, não naquele momento. Contratualmente, eu não tinha o direito de aprovar a capa. Mas eu podia ter tentado mais, discutido por mais tempo, feito mais barulho, ido a público (como outros autores mais corajosos fizeram). Talvez eu devesse até ter impedido a publicação.

Porém deixei rolar. Não fui bravo o suficiente para fazer valer minhas convicções. Eu não acredito naquilo que “todo mundo sabia”, mas acho que parte de mim temia que fosse verdade, e, depois do fracasso de ARMAGEDDON RAG, eu precisava muito que VOADORES DA NOITE desse certo. (Vale dizer que, de qualquer forma, a coletânea vendeu muito mal.) Isso tudo agora me deixa envergonhado.

Alguns anos mais tarde, o filme NIGHFLYERS saiu. Eu não tive qualquer envolvimento na produção, a não ser descontar o cheque dos direitos (cheque que, aliás, garantiu a minha casa e possivelmente salvou minha carreira). Nunca vi o roteiro. No filme, o nome de Melantha mudou para Miranda Dorlac, por… algum motivo, creio. Talvez eles simplesmente tenham achado que soava melhor.

(Karoly d’Branin também passou por uma mudança de nome, virou Michael d’Branin, mas Royd Eris continuou sendo Royd Eris. Os personagens menores ganharam nomes completamente diferentes daqueles que dei a eles na novela, mas isso tem um motivo… exatamente o que imaginei na época, mas só confirmei este ano, quando apresentamos NIGHTFLYERS no Jean Cocteau. Como presumi, o roteirista Robert Jaffe trabalhou em cima da minha novela original publicada na ANALOG, não da versão expandida que saiu depois… E, na novela original, os personagens secundários nunca são chamados pelos nomes, mas referidos apenas como “o telepata”, “o xenologista”, “o linguista” etc. Jaffe inventou nomes para eles, sem saber que eu mesmo já tinha feito isso na versão mais longa da novela.)

O papel de Miranda Dorlac (Melantha Jhirl) ficou com Catherine Mary Stewart.

Catherine Mary Stewart era uma atriz de carreira consolidada, popular, um dos maiores nomes no elenco de NIGHTFLYERS, e fez um trabalho muito bom como Miranda Dorlac da maneira que a personagem foi reimaginada… mas ela com certeza não era Melantha Jhirl. Dessa vez eu não tive nem a oportunidade de protestar, já que nunca fui consultado no que diz respeito ao elenco… ainda que tenha estado com Catherine Mary Stewart, na única vez que visitei as filmagens. Ela foi muito agradável. E, claro, na ocasião já era tarde demais para falar qualquer coisa, então fiquei calado.

O filme saiu em 1987. Faz muito tempo. Passei décadas sem praticamente pensar em NIGHTFLYERS. Até a primavera passada, quando soube que o SyFy, tendo adquirido os direitos da Vista por meio daquele velho filme, estava desenvolvendo uma série de TV. Não participei do desenvolvimento, e não fazia ideia do que estava acontecendo até então… e meu contrato de exclusividade com a HBO impede que eu tenha qualquer função real no programa… mas o anúncio me trouxe de volta um monte de lembranças. Por duas vezes fiquei calado quando deveria ter aberto a boca. E estava determinado em não ficar calado pela terceira vez. Então fui até a UCP e, por meio dela, cheguei aos roteiristas e produtores do projeto NIGHTFLYERS, e disse a eles… bem, basicamente o que escrevi aqui. E tenho o prazer de dizer que eles me ouviram.

Na série, a protagonista vai se chamar Mel, mas imagino que seja simplesmente um diminutivo para Melantha (no roteiro que li, Karoly d’Branin virou Karl e Royd Eris é simplesmente Roy, então existe uma coerência). E Mel vai ser vivida pela atriz JODIE TURNER-SMITH.

Demorou 30 anos, mas finalmente posso dizer: essa sim é Melantha Jhirl.

O showrunner Daniel Cerone escreveu o seguinte: “Estamos mais do que animados com ela. Desde o começo, Jeff sustentou que precisávamos de uma atriz negra (Jodie é britânica de origens jamaicanas) para sermos fieis a sua visão original. Prestamos atenção em sua história sobre como os editores do livro (e o filme original) vacilaram com Melantha, e queremos que os fãs saibam que estamos fazendo de tudo para honrar suas intenções.”

Você pode saber mais sobre ela aqui:

http://www.imdb.com/name/nm3853652/?ref_=fn_al_nm_1

https://www.instagram.com/jodiesmith/

https://www.bustle.com/articles/138584-who-is-the-woman-in-zayn-maliks-pillowtalk-music-video-the-british-actress-is-one-to

Eu ainda não tive o prazer de conhecê-la, mas não poderia estar mais feliz por ela ter sido a escolhida e estou ansioso para ver com vai ser sua Melantha. Muito obrigado a todo o pessoal gente boa da UCP e de NIGHFLYERS por ter feito isso acontecer.

Mas eu gostaria que tivesse acontecido 30 anos atrás.

Localização atual: EM CASA

Mood atual: SATISFEITO


Texto traduzido do post “Melantha, Done Right At Last”, publicado originalmente por George R.R. Martin em seu blog oficial em 5 de dezembro de 2017. Link para o blog: http://grrm.livejournal.com/.


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