George R.R. Martin fala na WorldCon

Publicado em: 11/08/2017


Nosso “bom velhinho” George R.R. Martin é uma das grandes atrações da World Science Fiction Convention (WorldCon), a mais antiga e tradicional convenção de ficção científica em atividade, que este ano acontece em Helsinki, na Finlândia.

Ele se juntou a seu companheiro de ofício Marko Kloss para conversar sobre projetos, experiências de escrita e, claro, Wild Cards e As Crônicas de Gelo e Fogo!

Confira abaixo a entrevista concedida à Amazon Publishing e, em seguida, a transcrição traduzida da íntegra do bate-papo!

Entrevistadora
Olá a todos, estamos ao vivo em Helsinki na Worldcom 2017, com George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo e Marco Kloos, autor de The Frontline Series. Vamos direto às perguntas.Bem, vocês dois trabalharam juntos em Wild Cards. Falem mais sobre este universo e a colaboração de vocês.

George R.R. Martin
Wild Cards
é uma série no formato de mundo compartilhado que eu venho editando, e venho trabalhando nela desde 1987. Ou seja, estamos comemorando 30 anos este ano. É como uma franquia de super-heróis, como os livros da Marvel ou DC Comics da minha juventude, mas construídos de forma mais realista, numa lógica de ficção científica. Há mais de quarenta autores envolvidos além de mim, e eu também edito.

Marko é um de nossos novos recrutas. Sua primeira história de Wild Cards não está finalizada ainda, mas será publicada ano que vem, em um livro chamado “Low Chicago”, e um personagem chamado Khan. Mas vou deixar que ele fale sobre isso.

Marko
Tem sido tão divertido fazer isso e poder criar seu próprio personagem para um livro de quadrinhos e ao mesmo tempo ter a liberdade para isso. Khan é o que dentro do universo chamamos de curinga, com metade de seu corpo em forma de tigre e a outra parte humana, e ele pesa quase 140 quilos e mede mais de 1,80m. Um cara grande e forte, que já sobreviveu há muita coisa. É muito difícil mata-lo, basicamente. Eu escrevi uma história com ele e haverá outras no futuro. É divertido escrever sobre ele. É fora do que eu costumo escrever. É como tirar férias e escrever uma história de Wild Cards entre duas novelas.

George R.R. Martin
Bom, esperamos ter mais histórias suas em Wild Cards. E Wild Cards é um processo colaborativo. Cada autor cria seu próprio personagem, mas todos os personagens estão disponíveis para serem emprestados aos outros escritores. Meu personagem está sempre encontrando o seu e brigando, ou se apaixonando, e se juntando para novas aventuras. Essa é a diversão de Wild Cards. E, além dos livros de Wild Cards – atualmente são 23 já publicados e mais quatro estão a caminho – esperamos ter uma série de TV baseada em Wild Cards em um ano ou dois. Neste momento estamos trabalhando com o canal a cabo Universal para desenvolver na verdade várias séries de Wild Cards. Então fique de olho em novidades sobre a série de TV de Wild Cards, que estarão na sua tela em um ano ou dois, talvez.

Entrevistadora
Marko, você perguntou aos fãs de Wild Cards o que eles perguntariam ao George se tivessem a chance. Você tem alguns exemplos?

Marko
Alguém me perguntou quando teremos a chance de rever o grande e poderoso Tartaruga.

George R.R. Martin
Sim. O Tartaruga é meu primeiro personagem de Wild Cards, eu inventei uma dúzia deles. Uma particularidade de Wild Cards, diferentemente das histórias da Marvel ou DC, é que as coisas acontecem no tempo real. Quando eu estava no colegial, Peter Parker, o Homem Aranha, também estava no colegial. Mas eu saí e ele continuou no colegial. Ou seja, o tempo é fluido no universo da Marvel. Mas no universo de Wild Cards ele não é fluido. O Tartaruga tem mais ou menos a minha idade. Ele é  basicamente uma versão minha com superpoderes.  Ele é um pouco mais velho do que eu, mas ainda está por aí. Talvez eu o traga de volta em alguma história. Nós também fazemos algumas voltas no tempo, então eu posso fazer alguma crônica sobre ele durante os anos 60, 70 ou 80.

Entrevistadora
Vocês poderiam falar um pouco sobre seus projetos de pesquisa e o processo de criação de cenas de batalha?

Marko
Essa é boa! O que eu normalmente faço para criar cenas de batalhas… eu não tenho exatamente um approach, mas eu pego uma trilha sonora… eu escuto trilhas sonoras enquanto escrevo porque elas são boas para esse propósito.  Elas são feitas para evocar uma disposição e eu tenho uma playlist para cada livro que escrevi. Eu basicamente coloco a música e uma vez que você entra no clima e pensa sobre como aquilo ficaria na tela e desenvolve os action beats, com a preocupação de manter aquilo realista. E você se torna melhor com a prática. Eu acho que as cenas de batalha são minha habilidade, porque nos meus livros eu tenho essas batalhas prolongadas, que duram horas, dias ou semanas. É algo complicado, ser capaz de aumentar as apostas e não apenas algo sem estrutura.

George R.R. Martin
Cenas de batalha são difíceis de escrever. Fiz algumas para as As Crônicas de Gelo e Fogo, um pouco distintas das cenas do Marko. Ele lida com seres de outros planetas, espaço, com armas de alta tecnologia, mísseis, bombas e projéteis e eu lido com caras grandes e barbudos, espadas, tentando acertar uns aos outros com flechas de fogo. Mas os desafios são basicamente os mesmos, não importa o nível de tecnologia ou armamento. Eu li muito sobre história militar e sempre fui fascinado pelo tema, e sempre fiquei meio frustrado com a forma como as batalhas são tratadas pela TV e cinema. O desafio é tentar unir os dois aspectos da batalha, o ponto de vista do general e o ponto de vista do soldado. O general está observando a batalha de trás e pode ver quando avançar ou recuar, ele está vendo todos os aspectos técnicos e estratégicos, está jogando xadrez. E isso é fascinante para alguém que gosta de história militar, mas também tende a ser um olhar mais seco. O ponto de vista do soldado é muito mais visceral. É algo como “meu Deus, estou no meio dessa batalha e um cara grande está vindo na minha direção…fui atingido…”. É muito mais visceral e excitante, mas você também não apreende o sentido da grande batalha. Então o grande desafio ao escrever cenas de batalha é tentar abordar os dois pontos de vista na cena. É dar ao leitor as duas perspectivas, mais geral e estratégica do front, mas também o colocar nos olhos do seu protagonista, no meio da ação, com todo o sangue escorrendo e a emoção.

Mas eu acho que você faz isso muito bem…

Marko
Bom, toda a série é escrita no presente, em primeira pessoa. O grande conceito da série é esse cara que começa como soldado e sobe muito lentamente. Então ninguém vê o que ele não vê. Então requer uma certa ginástica mental para coloca-lo onde ele precisa estar, dando um pouco do ponto de vista geral da batalha, mas sem perder de vista que ele não tem como ter essa ideia por ser apenas um soldado raso. Então tive de dar a ele um trabalho, fazer dele um controlador da batalha, basicamente o cara com um grande rádio pedindo reforço aéreo e suporte do espaço, que basicamente coordena esse suporte. Então tive de dar a ele uma função plausível. Fazê-lo enxergar a coisa do chão e ao mesmo tempo ter alguma visão mais geral da batalha, sem que isso se tornasse irreal.

George R.R. Martin
E Marko está escrevendo outra história de Wild Cards, para um livro que ainda não entregamos, um livro britânico de Wild Cards, chamado Naves Over Queens, sobre a guerra das Malvinas, em que haverá um personagem com superpoderes chamado Arquimedes, e você lida um pouco com isso, com ele sendo orientado pelo almirante.

Marko
Claro que ele tem algumas vantagens em relação a Andrew Grace, de Frontline Books porque Arquimedes é um ativo militar, uma verdadeira arma humana, e essa é a razão dele ser orientado pelo almirante. Então é um pouco mais fácil escrever essa história e coloca-lo onde ele precisa estar, ser parte do alto nível.

Entrevistadora
Marko, você está terminando sua Frontline Series. Qual foi sua parte favorita de escrever?

Marko
Além de escrever o fim? Sempre que eu termino um livro… o que é engraçado é que eu nunca planejei que ela se tornasse uma série longa. Todo mundo planeja uma trilogia quando começa a escrever ficção científica. E acabei escrevendo seis livros. A parte mais divertida foi ter podido expandir o que eu inicialmente planejei para o personagem. Planejei que Andrew tivesse uma personalidade bem definida. Ele começou bem verde e ingênuo e ao longo dos livros ele se torna mais maduro. Eu queria mostrar seu desenvolvimento pessoal, tanto em relação à sua carreira militar como na vida pessoal. Era divertido voltar ao livro anterior e colocar mais um tijolo nessa construção. Escrever uma série é como calçar um par de chinelos, os personagens se tornam muito familiares.

Entrevistadora
E o que vem pela frente depois Frontline?

Marko
O próximo será o primeiro livro de uma nova série de ficção científica militar. Teremos novidades sobre ela em breve.  Espero terminar até o fim deste ano, então vocês a verão no ano seguinte.

George R.R. Martin
E ele terá mais histórias de Wild Cards. Não vai se livrar disso tão facilmente…

Entrevistadora
Marko, qual foi o primeiro livro de fantasia que você leu?

Marko
O primeiro livro de fantasia que eu li foi A História Sem Fim, do autor alemão Michael Ende. Foi uma das primeiras vezes em que eu peguei um livro e não consegui largar por dois dias. Foi totalmente transformador e eu pensei: alguém pode escrever esse tipo de coisa? Foi seminal para mim.

Entrevistadora
E George?

George R.R. Martin
Provavelmente o primeiro livro de fantasia que li foi uma antologia chamada Swords and Sorcery. É uma coletânea de histórias de capa e magia. Foi a primeira vez que encontrei grandes personagens e o memorável Conan, o Bárbaro e havia um número grande de heróis do gênero e histórias representativas da série naquele livro. E meio que me fisgou. E claro, alguns anos depois, descobri O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e me perdi para sempre.

Entrevistadora
George, e como você descobriu que era um contador de histórias?

George R.R. Martin
Eu estava com seis ou sete anos, e eu tenho até hoje os cadernos de escola em que eu escrevi as aventuras do Astronauta de Brinquedo, que eu estava colecionando na época, e depois eu desenvolvi toda uma série de aventuras baseadas na vida das minhas tartarugas de estimação. Então desde muito novo eu escrevo histórias. Acho que é algo que nasceu comigo.

Entrevistadora
E Marko, como você descobriu que você era um contador de histórias?

Marko
Eu não sei exatamente quando comecei a escrever, mas tenho certeza de que foi quando meu irmão e eu estávamos no ensino básico e eu inventava histórias para ele levar para a escola.  Eu devia estar na segunda ou terceira série. Não era nada maravilhoso, boa parte das histórias que eu escrevia eram cópias de outras coisas ou mesmo da televisão, mas foi um começo. E eu segui escrevendo desde então.

Entrevistadora
E George, temos de perguntar: Qual foi sua parte favorita escrevendo A Guerra dos Tronos?

George R.R. Martin
Minha parte favorita é sempre quando eu termino um livro e entrego. Claro que eu não tenho esse prazer há alguns anos, dado que eu estou seriamente atrasado com a entrega de Os Ventos do Inverno, mas eu espero ter a sensação de entrega-lo.  E tem mais um pela frente, Um Sonho de Primavera. Quando eu finalizar tudo será um imenso alivio.

Entrevistadora
George, você já declarou que existem dois tipos de escritores, os arquitetos e os jardineiros. Poderia falar mais sobre isso?

George R.R. Martin
Claro! Um arquiteto escreve um livro da mesma maneira que um arquiteto projeta uma casa. Ele sabe quantos quartos vai construir, e que tipo de telhado usará, e sabe como colocar a parte elétrica e o encanamento, as dimensões de cada quarto. Tudo está planejado e alguns autores trabalham dessa forma, desenhando completamente as linhas da história antes de escrever a primeira palavra. Um jardineiro cava um buraco, coloca a semente, molha e espera que algo cresça. E há escritores que trabalham dessa forma também, apenas se sentam e escrevem, e surge a primeira frase, colocam um personagem na cena e observam o que acontece. Ninguém, no meu ponto de vista, é completamente arquiteto ou completamente jardineiro. Mas você tende a ser mais uma coisa ou outra. E eu sou muito mais um jardineiro do que um arquiteto.

Entrevistadora
E Marko, o que você diria que é?

Marko
Eu acho que sou mais para jardineiro também. Preciso ter um esboço, e para cada livro tenho uma lista de tópicos, como eu quero começar o livro e como quero termina-lo. E sei cada ponto que quero atingir, então faço uma lista capítulo a capítulo, do que precisa acontecer em cada capítulo. E eu tenho como um GPS, uma direção que tento seguir. Em alguns momentos eu alivio, mas ajuda ter uma direção, grosso modo. De modo geral eu tendo a ser mais jardineiro do que um arquiteto, definitivamente.

Entrevistadora
E Marko, qual lugar te inspira a escrever?

Marko
A geladeira, quando está vazia…risos. Eu gosto de onde estamos agora, New Hampshire. É muito bucólico e silencioso. E eu tenho a milha família lá, minhas coisas, meus cachorros. É onde tudo está. E ninguém toca a campainha e me atrapalha. E eu tenho esse lugar de retiro, onde simplesmente fecho a porta e não ouço nada além dos passarinhos. É muito bom. E também tendo tudo por perto e tendo que pagar por este lugar maravilhoso para escrever me mantém motivado a seguir recebendo os pagamentos.

Entrevistadora
E para você, George?

George R.R. Martin
Eu vivo em Santa Fé, Novo México, e é lá que escrevo. Conheço alguns escritores que trabalham em quartos de hotel, em aviões ou trens. Eu não sou capaz de fazer isso. Eu realmente preciso estar no meu escritório, eu não ouço música, eu digo a meus assistentes para manter tudo distante, eu fecho a porta, abro a tela e mergulho em Westeros, no universo de Wild Cards ou o que quer que eu esteja escrevendo. Perco a consciência do mundo exterior por um período de tempo.

Entrevistadora
Obrigada a vocês dois por terem se juntado a nós. Obrigada a todos que assistiram e obrigada por terem vindo à World Con 2017. Foi ótimo!

George R.R. Martin
O prazer foi nosso.

Markos
Obrigado.


Link para postagem original da entrevista: https://www.facebook.com/amazonpublishing/videos/1518584951557673/


Compartilhe


Comentários