George R.R. Martin e Robin Hobb conversam sobre escrita

Publicado em: 02/10/2017


Ocasiões históricas devem ser recordadas! E 19 de agosto de 2014 foi a data de um encontro entre dois grandes, dois dos maiores:  George R.R. Martin e Robin Hobb receberam o público no Freemasons’ Hall, em Londres, para um bate-papo sobre as respectivas carreiras e seus hábitos no que se refere à arte da escrita. Foi, como não poderia deixar de ser, um bate-papo memorável. Então, neste mês  em que a LeYa lança um livraço de cada um – George R.R. Martin: RRestrospectiva da Obra e O Navio Arcano, de Robin Hobb –, lembramos aqui alguns dos melhores momentos daquela noite.

 

 

Sobre suas primeiras histórias

George R.R. Martin: Eu nunca cheguei a terminar minhas primeiras histórias. São todas apenas inícios, uma quantidade infinita de inícios.

Robin Hobb: Eu estava usando uma fantasia de bruxa para o Halloween e queria escrever uma história sobre sobre meu gato preto antes de sair atrás de gostosuras ou travessuras. Acho que foi parar no lixo no dia seguinte.

GRRM: O melhor conselho sobre escrita que eu tive foi no livro Heinlein’s Rules for Writers, do Robert Heinlein. A primeira regra é que você precisa escrever, e isso eu já estava fazendo, mas a segunda é “Você precisa terminar o que escreve”, e isso teve um grande impacto em mim.

GRRM: Eu tinha uns brinquedos baratos de alienígenas e inventava histórias com eles. Eram piratas do espaço. Eles não tinham nomes, então eu inventava. Essas foram as primeiras histórias que criei. Mesmo quando criança eu já pensava sobre tortura.

 

Sobre a infância

GRRM: Nós nunca íamos a lugar nenhum porque não tínhamos dinheiro nem carro, mas eu ficava olhando pela janela da sala e via as luzes de Staten Island. Aquilo para mim era incrivelmente romântico, como a Terra Média. Mas, claro, o perigo é que uma hora ou outra você acaba chegando a Staten Island.

RH: Eu comecei a ler tudo que tinha na biblioteca da família. Raptado, A Ilha do Tesouro, Robinson Crusoé. E, claro, se os livros acabam você pode sempre ler Shakespeare.

GRRM: Ler. Nesse esporte eu era bom.

 

Sobre o primeiro texto profissional

GRRM: Foi um conto chamado “The Hero”, “O Herói”, que eu vendi para a revista Galaxy em 1974 por 94 dólares.

RH: Eu comecei a tentar escrever para crianças supondo, muito erroneamente, que escrever para crianças era fácil.

GRRM: Eu me formei em jornalismo, e tive aulas de escrita criativa na faculdade, mas eu procurava jeitos de aproveitar as outras aulas para escrever contos também. Então, na minha aula de História Escandinava, eu perguntei se podia escrever uma ficção história no lugar do trabalho de conclusão. Às vezes eles diziam que sim.

 

Sobre a escrita

GRRM: É diferente para cada escritor. Não é uma carreira para quem busca segurança. É uma carreira para quem gosta de jogar com a sorte. É uma carreira de altos e baixos.

RH: Ser escritor tem muito pouco a ver com dar autógrafos. E, basicamente, sentar no seu quarto e escrever. É fazer sair de você.

GRRM: Eu concordo. O principal são as histórias. No final você quer voltar logo para o seu quarto, voltar para seus persongens.

GRRM: Eu tive muita sorte. Houve vezes em que eu morria de medo de nunca mais vender outro livro, mas nunca duvidei que iria escrever outro livro.

GRRM: É preciso estar pronto para aceitar a rejeição. Você pode trabalhar num livro por dois anos e conseguir publicá-lo, e isso é como se você o atirasse dentro de um poço. Nem tudo são entrevistas ao New York Times e champanhe.

RH: É como pegar borboletas tentando não machucá-las.

GRRM: Existe um lado meu que ama as palavras. Mas às vezes eu sinto como se estivesse tentando martelar pregos com um sapato.

 

 

Sobre edição

RH: As maiores dúvidas surgem cinco minutos depois de eu clicar no “enviar”.

RH: Eu gosto muito mais de reescrever do que de fazer os primeiros rascunhos. Os primeiros rascunhos são muito difíceis. Na hora de reescrever você pelo menos tem algo em que trabalhar.

RH: Quando todos os meus editores dizem “Isso é muito ruim, você precisa mudar”, eu os ignoro por minha conta e risco.

 

Sobre matar personagens e torturar leitores

GRRM: Eu poderia escrever uma história sobre uma família certinha. Ned Stark chega e resolve todos os problemas. Isso teria alguma graça?

RH: George domina seu imenso elenco de personagens com muita habilidade. Quando eu passo de cinco personagens já penso que preciso simplificar a história.

GRRM: Meus livros são estruturados assim: primeiro todo mundo está junto, depois cada um vai para um lado. E a história evolui dessa forma, para fora. Mas agora ela está num ponto em que começa a evoluir para dentro de novo, e muitas vezes os pontos de vista dos personagens vão se encontrando e parando no mesmo lugar ao mesmo tempo, o que me dá mais flexibilidade para matar pessoas.

 

Sobre bloqueios

RH: Eu sento lá e digo ao personagem: “não faça isso, não faça isso, você vai fazer com que a história fique três capítulos maior”, mas é claro que ele não me ouve.

GRRM: Tenho muitos personagens, ainda bem. Então, se tenho alguma problema com o Tyrion, posso escrever sobre a Arya por um tempo. Até que um dia surge uma solução para o Tyrion, do nada.

 

Sobre o que eles diriam a suas versões mais jovens

RH: Comece a escrever mais cedo. Não espere ter permissão para isso. Não hesite.

GRR: Eu seria anônimo. É a única coisa que eu faria diferente.

 

 

Sobre As Crônicas de Gelo e Fogo

GRRM: Eu achava que seria ser uma trilogia. A proposta inicial era para ser A Guerra dos Tronos, A Dança dos Dragões e Os Ventos do Inverno. Houve uma época em que achei que nunca chegaria até A Dança dos Dragões, porque o segundo livro virou o terceiro, e então veio um quarto, e ele virou o quinto livro. A narrativa foi crescendo enquanto era narrada. Por mais que tenha tudo bem planejado, outras tramas surgem na cabeça na hora em que você senta para escrever, você acaba pensando em uma subtrama interessante. De repente a sopa ganha corpo, mas, consequentemente, você não vai conseguir tomar tudo de uma vez só.

 

Sobre sonhos

GRRM: Meus sonhos são aqueles coisas incoerentes, como os de todo mundo. Como a maioria dos escritores, em certo ponto da minha carreira eu pensei, “bem, tenho esses sonhos incríveis, mas sempre esqueço de tudo pela manhã, então vou deixar meu bloco na mesa de cabeceira para poder anotar tudo”. Aí você tem um sonho maravilhoso, escreve tudo sobre ele e quando acorda vai olhar o que escreveu: “meias roxas”.

 

Sobre outsiders

RH: Todo mundo já achou, num momento ou outro da vida, que todas as outras pessoas são melhores que você. Então, quando você abre espaço para isso, acho que você abre espaço para o leitor e cria um personagem que traz o leitor mais para dentro da sua história.

GRRM: Sempre me interessei pelo outsider e pelo azarão. “Aleijados, Bastardos e Coisas Quebradas” é o título de um dos episódios da série. A angústia que eles sentem é uma produtora de conflito, de drama, e tem algo de muito atraente nisso. Meu livro A Guerra dos Tronos  é narrado por outsiders dos dois tipos. Nenhum deles se encaixa confortavelmente na sociedade em que nasceram, e todos eles estão brigando para encontrar um lugar em que sejam valorizados, amados e respeitados, apesar daquilo que a sociedade enxerga como deficiências. E daí, na minha opinião, saem boas histórias.

 

Sobre nomes

GRRM: Nomes são difíceis. Eu tenho uma biblioteca inteira com livros do tipo “Nomes para o Seu Bebê” e estou sempre comprando novos, inclusive com nomes de bebês de outros países. Eu gosto de nomes que tenham uma sonoridade legal.

GRRM: Uma coisa que sempre sempre foi inútil para mim são esse geradores de nomes de fantasia on-line. Experimentei algumas vezes. Eles dizem: “clique neste botão e vamos gerar 50 nomes de fantasia”, mas tudo o que aparece são coisas como “Grisknuckle”.

GRRM: Muitos nomes de fantasia são exagerados, difíceis de pronunciar. Eu queria um quê de Inglaterra medieval. Peguei nomes que ainda existem hoje, como “Robert”, e em alguns casos dei uma retorcida neles. Transformei “Edward” em “Eddard”. Se você for ver, ninguém sabia pronunciar os próprios nomes na Idade Média. Muitas variações se perderam

GRRM: Existe uma antiga regra de escrita que diz assim: “não tenha dois personagens cujo nome comece com a mesma letra”. Mas desde o início eu sabia que teria mais de 26 personagens, então já estava em apuros. A verdade é que escolho o que soa como o certo. Se não posso encontrar o nome certo é porque não sei quem o personagem é, então não posso continuar.


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