George R.R. Martin e a literatura de terror

Publicado em: 10/02/2018


George R.R. Martin sempre gostou de histórias de monstros. Entre as décadas de 1970 e 80, produziu diversos contos e novelas que misturavam terror e ficção científica – como “O homem do depósito de carne”, “Recordando Melody”, “Reis da areia”, “Voadores da noite” (que vai dar origem à série Nightflyers) , “O tratamento do macaco” e “O homem em forma de pera”, incluídos em George R.R. Martin: RRetrospectiva da obra. Da mesma época (1982) é o romance Sonho febril, publicado em 2015 pela LeYa, que, com muita propriedade, narra uma história de vampiros.

Em 1986, George editou a coletânea de terror Night visions 3 para a editora americana Dark Harvest. Em sua introdução, escreveu o que espera de um bom texto de horror. Vale a pena a leitura deste trecho, que também está no RRestrospectiva:

Aqueles que alegam que lemos histórias de terror pelos mesmos motivos pelos quais andamos de montanha-russa não entenderam nada. Na melhor das hipóteses, saímos de uma montanha-russa com uma simples descarga de adrenalina, e a ficção não é sobre isso. Como uma montanha-russa, um conto de terror ruim pode talvez nos deixar nauseados, mas a comparação para por aí. Procuramos a ficção em busca de coisas além daquelas que podem ser encontradas em parques de diversão.

Uma boa história de terror nos assusta, sim. Ela nos manterá acordados à noite, fará nossa pele arrepiar, vai penetrar em nossos sonhos e dar novo significado à escuridão. Medo, terror, horror – chame como quiser, ela bebe de todas essas taças. Mas, por favor, não confunda esses sentimentos com uma simples vertigem. As grandes histórias, aquelas que permanecem em nossa memória e mudam as nossas vidas, nunca falam sobre as coisas como elas são.

As histórias de terror ruins se preocupam com seis formas de matar um vampiro, e relatos explícitos de como os ratos comeram a genitália de Billy. Boas histórias de terror são sobre coisas maiores. São sobre esperança e desespero. Sobre amor e ódio, lascívia e inveja. Sobre amizade, adolescência, sexualidade e fúria, solidão, alienação e psicose, coragem e covardia, a mente, o corpo e o espírito humanos sob estresse e em agonia, o coração humano em interminável conflito consigo mesmo. As boas histórias de terror fazem com que vejamos nossos reflexos em espelhos escuros e distorcidos, onde vislumbramos coisas que nos perturbam, coisas que não queremos ver de verdade. O terror olha nas sombras da alma humana para os medos e as fúrias que vivem dentro de todos nós. Mas escuridão não significa nada sem luz, e terror não faz sentido sem beleza. As melhores histórias de terror são em primeiro lugar histórias e depois terror, e por mais que nos assustem, também fazem mais do que isso. Têm nelas o espaço para riso, bem como para gritos, para triunfo e ternura, e também para tragédia. Elas se preocupam não apenas com o medo, mas com a vida em toda a sua infinita variedade, com amor, morte, nascimento, esperança, desejo e transcendência, com toda a gama de experiências e emoções que compõem a condição humana. Seus personagens são pessoas, pessoas que permanecem em nossa imaginação, pessoas como aquelas ao redor de nós, pessoas que não existem apenas para ser objeto de um massacre violento no quarto capítulo. As melhores histórias de terror nos dizem verdades.


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