Descanse em paz, Roy – por George R.R. Martin

Publicado em: 18/10/2017


O mundo ficou um pouco pior esta semana. Roy Dotrice morreu. Ele tinha 94 anos.

Roy começou a atuar num campo de concentração alemão durante a Segunda Guerra Mundial e acabou por se tornar um dos gigantes dos palcos e das telas britânicas, condecorado pela rainha. Ele bateu recordes com seu monólogo Brief Lives e fez o papel-chave do pai de Mozart no filme Amadeus, entre centenas de outros créditos no currículo. Ele era um ator de supremo talento.

 

 

E era também meu amigo. Ele morava na Inglaterra e eu, no Novo México, então não nos víamos com muita frequência, mas tudo o que fazíamos juntos se transformava em puro deleite. Vou sempre guardar na memória a ocasião em que jantei com Roy e sua mulher Kay (que faleceu há alguns anos) no clube de que ele era dono, o Garrick, uma relíquia centenária habitada pelos espíritos das maiores lendas dos palcos britânicos. Foi uma noite realmente fantástica. Mas a última vez em que estive com Roy foi em Los Angelas, na festa que sua filha armou para comemorar os 90 anos dele.

Muitas das notícias sobre a morte de Roy o identificaram como um ator de Game of Thrones. Ele foi, claro. Fez o papel do piromântico Hallyne em dois episódios da segunda temporada… e, como sempre, atuou maravilhosamente.

 

 

Na verdade, Roy deveria ter tido um papel muito maior na série. Quando o escalamos inicialmente, ele era a nossa escolha para interpretar o Grande Meistre Pycelle, e não tenho dúvidas de que ele teria ficado magnífico nesse papel. Infelizmente, problemas de saúde o fizeram desistir. Julian Glover então chegou e ocupou o lugar dele de forma admirável, mas às vezes ainda fico imaginado como teria sido.

A associação entre Roy e Game of Thrones vai muito além da série de TV. Ele foi também o leitor dos audiolivros dos cinco livros da série… ainda que chamá-lo de “leitor” não reflita o verdadeiro trabalho dele. Roy representou aqueles livros. Ele deu uma voz distinta a cada personagem, ainda que houvesse centenas deles. Eram tantos que, aliás, o Guinness, o livro dos recordes, declarou que ele foi a pessoa que fez as vozes do maior número de personagens diferentes em um só livro pelo seu trabalho em A Guerra do Tronos, um recorde que ele ainda é dele (ainda que eu suspeite que tenha sido batido por ele mesmo nas leituras dos livros seguintes).

Eu amo o que Roy fez nos audiolivros. Muito mais do que ler as minhas palavras em voz alta, ele deu a elas vida como poucos atores teriam sido capazes. E todos os fãs concordaram. Roy fez os audiolivros de A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis e A Tormenta da Espadas, sendo sempre muito elogiado. Quando chegou a hora de gravar O Festim dos Corvos, no entanto, ele não estava disponível. Tinha ido fazer uma peça em Birmingham, me disseram. Então meus editores chamaram outra pessoa para ler. Mas os fãs não queriam saber disso. Depois de o audiolivro de O Festim sair, a editora Random House recebeu tantas reclamações que não teve outro jeito a não ser voltar e regravar o livro com Roy, lançando uma segunda versão. Então, claro, quando chegou a hora de gravar A Dança dos Dragões, ninguém teve dúvidas de quem deveria fazer a leitura.

Agora que Ray foi embora, não tenho a menor ideia de quem poderá fazer os audiolivros de Os Ventos do Inverno e Um Sonho de Primavera. Mas, quem quer que seja, vai ter uma missão muito, muito difícil a cumprir.

Para além do excelente trabalho que ele realizou em As Crônicas de Gelo e Fogo, tenho lembranças dele ainda mais antigas, dos três anos que trabalhamos juntos em A Bela e a Fera para a CBS. Memórias fantásticas, para mim: foi um programa maravilhoso, era um prazer trabalhar nele. Tínhamos uma equipe fantástica de roteiristas, e, obviamente, um elenco sensacional, do qual faziam parte Jay Acovone, Linda Hamilton, Jo Anderson, o incrível Ron Perlman… e Ray, claro, como o pai. Foi uma honra e um privilégio escrever para ele.

Aqueles anos de B&F também foram muito importantes para o Roy. Muito recentemente, mês passado, ele publicou uma despedida para todos os fãs de A Bela e a Fera espalhados pelo mundo. Está no YouTube.

Que ator excelente. Que pessoa doce.

 

 

Hoje, todos que o conheciam estão tristes.

Mood atual: TRISTE


Texto traduzido do post “Rest in please, Roy“, publicado originalmente por George R.R. Martin em seu blog oficial em 17 de outubro de 2017. Link para o blog: http://grrm.livejournal.com/.


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