“Nem todo autor tem autoconfiança para tentar o que fiz”, responde David D. Levine ao Omelete

Publicado em: 18/09/2017


Não foi rápido, tampouco fácil, mas David. D. Levine, autor de O Reciclador, persistiu e conseguiu entrar para o Wild Cards Consortium, seleto time dos autores que escrevem Wild Cards. Para o lançamento de sua primeira história solo a saga de Tiago Gonçalves, o ás-curinga brasileiro , o autor concedeu uma entrevista exclusiva ao site Omelete, que você confere na íntegra a seguir!


Omelete: Em seu site, você escreveu que procurou George R.R. Martin em 2007, quando Wild Cards estava renascendo, com a ideia de trabalhar nos novos livros, e ele disse que o consideraria para participar dos próximos. Na época, você achou que ele estava mesmo disposto a convocá-lo?

David D. Levine: Eu tinha consciência de que demoraria, mas imaginei que, como ganhador de um Hugo Awards, teria uma vantagem. De todo modo, sabia que perguntar não ofenderia. De lá para cá, aprendi que nem todo autor tem autoconfiança para tentar o que fiz.

 

O: Qual foi a sensação de ter Martin como parceiro na ficção, passando por todo o processo criativo?

DL: Ele é um editor maravilhoso. Tem o dom de encontrar exatamente a alteração certa, por menor que seja, para remodelar toda a história num formato novo e mais eficiente. Às vezes dá muito trabalho implementar essa “pequena” mudança, mas é sempre a coisa adequada para a história. Tenho certeza de que essa habilidade vem não só do incrível talento dele como escritor, mas dos anos em que trabalhou como editor de roteiros para a televisão. Trabalhar em Wild Cards provavelmente é o mais próximo que chegarei de trabalhar numa série de TV, e estou adorando cada minuto.

 

O: Você também escreveu que, nos anos 1980, leu os primeiros livros de Wild Cards e esta se tornou sua série de universo compartilhado favorita. O que a torna tão especial?

DL: Wild Cards combina a diversão e a emoção das histórias de super-heróis com a profundidade dos personagens e da construção do universo dos romances. Os personagens são mais bem delineados e realistas do que nas histórias em quadrinhos, e o universo é mais coerente e verossímil (o fato de GRRM ser o editor e o organizador da série com certeza é um fator importante aqui).

 

O: Quais são seus livros preferidos, os dos anos 1980 e 1990 ou os do ano 2000 em diante?

DL: Tenho um carinho especial pelos primeiros três ou quatro livros da série, que têm toda a empolgação da criação e descoberta de um mundo totalmente novo, mas acho que a qualidade da escrita vem melhorando nos últimos anos.

 

O: O abismo social no Rio de Janeiro parece coisa das grandes obras de ficção científica distópica: as pessoas que vivem à beira-mar estão completamente cercadas pelo Rio mais pobre das favelas e dos morros, e essa tensão parece estar em ebulição o tempo todo. Você achou que seria fácil usar o Rio como cenário na sua história?

DL: O legal da pesquisa é que você aprende coisas sobre o mundo real que enriquecem a trama. Comecei com uma vaga noção do Tiago como um menino da favela — não sabia nada sobre o Rio, a não ser que era uma cidade grande com umas partes muito ricas e outras muito pobres —, mas as coisas que descobri pesquisando se infiltraram no personagem e na história em desenvolvimento de um jeito que agora parece inevitável. Principalmente quando aprendi sobre os catadores e como eles reciclam lixo e o transformam em coisas úteis, a ligação com Tiago e seus poderes ficou óbvia — mas eu não sabia nada sobre isso até começar a pesquisar. As tensões entre os ricos e os pobres acrescentaram drama ao cenário, e os traficantes de drogas se mostraram vilões perfeitos.

 

O: Que tipo de mudanças você teve que fazer, além do contexto, para transformar o Reciclador, inicialmente nova-iorquino, em brasileiro? Há traços de personalidade que tenha decidido mudar?

DL: Como nova-iorquino, o Reciclador era agressivo, atrevido e confiante; a principal característica da personalidade que concebi de início era que ele se considerava o primeiro ás verdadeiro do século XXI (isso foi alguns anos atrás) e era um grande defensor da igualdade para os curingas. Sua história não estava bem definida, mas eu o imaginava como um menino de classe média baixa com o hábito de furtar lojas. O Reciclador original também tinha em torno de 20 anos, enquanto o personagem brasileiro só tem 15. Como um menino de rua sem-teto, ele é ignorante, desesperado e impulsivo, menos confiante que o original, porém mais combativo e disposto a lutar pelo que precisa. Além disso, é mais egocêntrico e ingênuo do que a versão nova-iorquina, mas acho que sua vida muito difícil também o torna um personagem mais simpático.

 

O: A pesquisa que você fez sobre o Rio é impressionante, especialmente as partes em que coloca as guerras de facções dentro das comunidades. Que tipo de fontes você usou nesse processo?

DL: Minhas fontes principais foram o livro Favela, de Janice Perlman; o documentário Lixo extraordinário e o artigo da diretora Lucy Walker para o The Guardian sobre como foi fazer o filme; um ensaio fotográfico em Jardim Gramacho; muitos e muitos textos de páginas aleatórias da internet; e a edição brasileira de Wild Cards: O Começo de Tudo, que me deu os termos em português para muitos conceitos específicos de Wild Cards.

 

O: Você teve que reescrever muita coisa depois que começou a verificação dos fatos?

DL: Na verdade, não! Fiquei muito surpreso com a recepção entusiasmada que a história recebeu dos meus revisores brasileiros. Eu sabia que tinha feito uma boa pesquisa, só que a gente sempre comete alguns erros… Mas fiquei muito feliz em descobrir que não foram tantos.

 

O: Sabia que o lixão de Jardim Gramacho foi desativado em 2012? E sabia que esse tipo de lixão era comum no Brasil antes de ver Lixo Extraordinário?

DL: Eu não sabia nada disso antes de começar a pesquisar para essa história. Sabia que o verdadeiro Jardim Gramacho foi desativado em 2012… Mas o universo Wild Cards não é o nosso, e nós, autores, podemos fazer quaisquer mudanças em relação ao mundo real necessárias à história! (Desde que ela continue coerente com as histórias já publicadas e receba a aprovação do editor.)

 

O: Já esteve no Rio de Janeiro antes ou depois de escrever o conto?

DL: Eu adoro viajar, mas ainda não conheci a América do Sul, infelizmente. Talvez um dia…

 

O: É claro que você precisou ler e ver muitas coisas sobre o Rio para escrever sobre ele. Sua percepção da cidade mudou muito durante o processo?

DL: Minhas percepções sobre o Rio com certeza mudaram enquanto eu escrevia a história, mas antes disso pouco tinha pensado na cidade. Uma coisa que aprendi durante meu tempo neste planeta é que, quando você olha com atenção para QUALQUER COISA, sempre a acha mais complicada do que aparentava ser à primeira vista. Agora tenho uma grande estima pela beleza do Rio e pelo espírito vibrante de seu povo, assim como respeito e tenho empatia pelas classes desfavorecidas.


O Reciclador – David D. Levine

 

O Reciclador conta a história de Tiago Gonçalves, catador de lixo do Jardim Gramacho, que se descobre carta selvagem. Assustado e sozinho, ele parte em uma perigosa jornada por um Rio de Janeiro repleto de ases e curingas, convivendo com os perigos urbanos e desigualdade social da Cidade Maravilhosa.


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