Abertas as indicações para o Hugo – por George R.R. Martin

Publicado em: 08/02/2018


As indicações para o Prêmio Hugo 2018 estão abertas, me informaram. Se você participou da Worldcon em Helsinki no ano passado, na deste ano em San José ou vai participar da do ano que vem em Dublin, você pode votar. Um e-mail vai chegar na sua caixa de entrada com um link para a cédula de votação. (O meu ainda não chegou, mas me disseram que outras pessoas já o receberam, então espero que isso aconteça muito em breve.)

Tenho algumas coisas passíveis de indicação este ano… mais referentes ao trabalho de edição do que de escrita, no entanto.

GAME OF THRONES pode concorrer na categoria de Programa Dramático, claro. Toda a sétima temporada pode ser indicada como Programa Dramático, Forma Longa, e qualquer episódio pode individualmente ser indicado em Forma Curta. GOT já ganhou nas duas categorias no passado. No último ano, em Helsinki, três episódios receberam votos suficientes para entrar na disputa, mas as novas regras limitam qualquer série a ter no máximo dois episódios concorrendo, então tivemos que excluir um. Mas você pode indicar quantos episódios quiser.

O ano de 2018 foi bem cheio para “Wild Cards”. Celebramos o aniversário de 30 anos da série e, no outono, publicamos nos EUA nosso 24º romance-mosaico, MISSISSIPPI ROLL. Alguns livros antigos foram reeditados e duas histórias originais de “Wild Cards” saíram no site Tor.com* – “When the devil drives”, da Melinda M. Snodgrass, e “The atonement tango”, do Stephan Leigh. As duas histórias são novelas curtas e podem ser indicadas nessa categoria. MISSISSIPPI ROLL é um caso mais complexo. Como a maior parte dos livros de “Wild Cards”, é um romance-mosaico, com histórias individuais escritas por meia dúzia de autores costuradas para produzir um todo que, assim esperamos, é maior que a soma das partes. Alguém pode argumentar que nossos mosaicos são antologias, acho… mas, para mim, são mais como romances colaborativos. Vistos da primeira forma, a maior parte dos textos individuais que compõem MISSISSIPPI ROLL pode concorrer nas categorias de contos, enquanto “In the shadow of tall snacks” entra como novela e as outras histórias, como novelas curtas. Se o segundo ponto de vista predominar, o volume como um todo pode ser indicado como romance.

Nos dois casos, posso ser indicado nas categorias de edição. Em Forma Curta, muito provavelmente, pelas histórias da Tor.com e também pelo livro. (Se você considera MISSISSIPPI ROLL um romance, eu poderia entrar como editor de Forma Longa, mas não acho que um livro é o suficiente para me fazer concorrer nessa categoria.) “Wild Cards” foi meu único trabalho como editor em 2017. Todas as grandes antologias multigêneros que coeditei com Gardner Dozois saíram nos anos anteriores.

“Wild Cards” pode, como um todo, ser indicada como Melhor Série. É um categoria nova, que apareceu pela primeira vez na cédula de votação no ano passado, como um experimento, mas agora se tornou permanente.

A única coisa que publiquei em 2017 como autor foi “The sons of the dragon”, que entrou em THE BOOK OF SWORDS**, grande antologia de histórias de espada e feitiçaria organizada por Gardner Dozois. Da mesma forma que “O príncipe de Westeros” e “A princesa e a rainha”*** antes dele, “The sons” é mais uma das minhas histórias (falsas) dos reis Targaryen de Westeros. Pelo tamanho é uma novela… mas não é uma narrativa tradicional. Pelo formato, pode ser lida como história, não ficção; mas, como a história é totalmente inventada, continua sendo ficção, mesmo que vestida de não ficção (falsa).

Alguém ressaltou que a publicação de “The sons of the dragon” faz com que “As Crônicas de Gelo e Fogo” seja passível de indicação como Melhor Série. Pode ser. Tudo o que tenho a dizer é: não façam isso, por favor. Se você é chegado em histórias falsas e gostou de “The sons of the dragon”, por favor indique o texto como novela… porque não é de fato parte de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, então arrastar toda a série junto me parece errado.

Se me derem a permissão de ampliar um pouco a discussão, enquanto, por um lado, acho bom que o Prêmio Hugo tenha agora uma categoria que reconheça séries de livros, gostaria de refletir um pouco sobre o que define uma “série”. As regras foram redigidas de maneira muito ampla, tornando possível a inclusão de não apenas séries de verdade, como a vencedora do ano passado, a saga Vorkosigana de Lois McMaster Bujold, mas qualquer agrupamento de histórias ambientadas num cenário em comum, algo que costumávamos chamar de “histórias futuras”, e também o que chamo de “megarromances”, aqueles épicos grandes demais para caber num único volume. Três quartos da ficção científica que escrevi lá nos anos 70 tinham um cenário em comum, mas nunca presumi estar escrevendo uma série quando visitava os Mil Mundos; era uma história futura, construída por tramas separadas por milhares de anos passadas em planetas separados por milhares de anos-luz (ainda que no meio dessa história futura houvesse uma série, os contos do Haviland Tuf). No extremo oposto, não considero “As Crônicas de Gelo e Fogo” uma série; é uma história única, que está sendo publicada em (assim esperamos) sete volumes. Se servir de consolo, Tolkien também não estava criando uma série quando escreveu O SENHOR DOS ANÉIS. Ele escreveu um romance grande e seu editor o dividiu em três partes, sendo que nenhuma delas pode ser lida de maneira independente.

Enfim, essa é a minha visão sobre o tema. Obviamente, a ótima equipe que cunhou as regras de Melhor Série discorda. Em última análise, acho que são os fãs quem vão definir a questão a partir do que escolherem indicar. Os comitês da Worldcon são tradicionalmente relutantes em contradizer os fãs, mesmo nos casos em que uma obra indicada parece ser inelegível por um motivo ou outro.

Mas “Wild Cards” é uma série, sem sombra de dúvida. Então, se você pensa em qualquer obra minha para concorrer a Melhor Série, é essa que peço para você escolher. Trinta e um anos e 24 livros é algo para se orgulhar – e me orgulho.

Independentemente de você indicar ou não algum trabalho meu, peço que todos os membros da Worldcon que estão lendo isto se certifiquem de votar. Hoje existem muitos prêmios de ficção científica, fantasia e terror, mas o Hugo foi o primeiro e ainda é o mais importante. É claro que também é importante participar da votação final… mas não dá para votar em obras que não foram pré-selecionadas, então é crucial participar amplamente da fase de indicação.

Localização atual: SANTA FE
Mood atual: PENSATIVO


Texto traduzido do post “Hugo Nominations Open publicado originalmente por George R.R. Martin em seu blog oficial em 7 de fevereiro de 2018. Link para o blog: http://grrm.livejournal.com/.


* Site da editora americana de “Wild Cards”.
** The book of swords, ainda sem título em português definido, será lançado este ano no Brasil pela LeYa.
*** O conto faz parte da antologia
Mulheres perigosas.

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