A fantasia imita a vida – por Martha Ribas

Publicado em: 16/07/2017


Eu não era leitora de fantasia, eu nunca tinha visto um episódio de nenhuma temporada de Game of Thrones. Eu amava ler, mas nem tentava começar um livro de literatura fantástica. Achava que dragões, elfos e outros reinos não eram para mim. E olha que trabalho há mais de 20 anos com livros e lembro com alegria de ler As Brumas de Avalon na adolescência e me encantar com a saga de Morgana e do Rei Arthur.

Em 1996, recém-formada em Produção Editorial, fundei com dois amigos a Casa da Palavra. Editava livros sobre minhas duas paixões: os livros e a cidade do Rio de Janeiro. Como nas Gêmeas, muita luta e muita água passaram por baixo desta ponte, até que em 2011 a Casa da Palavra passou a fazer parte do grupo LeYa. E, desde 2015, sou a diretora editorial do grupo.

O autor mais vendido da editora era (e ainda é) Mr. George R.R. Martin. Caramba, que responsabilidade. Com ele e com a LeYa percebi o quanto o mercado mudou. Hoje os leitores-fãs estão entre nós, no dia a dia da editora. Participam ativamente, opinando, reclamando, elogiando.

Resolvi então mergulhar de cabeça, tinha que ler todos os livros e ver os episódios do seriado para conhecer a fundo esse universo. E aí, me apaixonei. George R.R. Martin me enlouqueceu, me pegou pela mão como um amigo, me empurrou ladeira abaixo como um traidor, me fez esquecer da vida e dos problemas, me ajudou a superar as tristezas e o desânimo, me fez deixar para trás os preconceitos, me fez ver que fantasia ou não, a literatura dele é grande, para além dos rótulos.

Os temas são cuidadosamente desenvolvidos e a qualidade do texto não fica a dever a nenhum autor literário da atualidade. Dragões e mortos-vivos fazem parte da paisagem, os personagens são muito bem construídos, cheios de nuances e questões humanas, demasiado humanas. Falam de todos nós, com nossas miudezas, nossas atitudes comezinhas e nossos momentos de glória e compaixão. As relações são complexas e intrincadas, os sentimentos fortes. E o estilo, inconfundível. Ele trança de maneira cativante as histórias, mata personagens apaixonantes, é injusto, salva outros odiosos, para depois causar em você os sentimentos mais contraditórios, faz você amá-lo e odiá-lo de um capítulo para o outro, de uma página para outra.

Você começa a achar mil páginas pouco, a ficar abalado quando o livro está para acabar, a não conseguir parar de ler e, ao mesmo tempo, a ter medo de virar a página. O livro entra na nossa realidade como se fosse a própria vida. E, quando uma menina cansada e com medo, perdida em uma longa jornada, reencontra sua espada na bainha de um homem morto, voltamos a acreditar junto com ela e tudo parece de novo fazer sentido. A jornada está apenas começando.

Que venham mais mil páginas.


Martha Ribas é diretora editorial da LeYa Brasil, fundadora da Casa da Palavra e diretora de comunicação do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). E agora também é leitora-fã de George R.R. Martin.


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