10 arcos de “As Crônicas de Gelo e Fogo” que a HBO escolheu não adaptar – por Ana Carol Alves

Publicado em: 16/02/2018


O texto a seguir possui spoilers de todos os livros já publicados de “As Crônicas de Gelo e Fogo“. Leia por sua conta e risco!

Durante os sete anos em que Game of Thrones esteve no ar, textos e vídeos sobre as diferenças entre a série de TV e os livros de George R.R. Martin fizeram – e continufam a fazer – muito sucesso. Isso porque é interessante perceber como a HBO escolheu deixar de fora da série uma dezena de arcos interessantes de “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Arcos esses que, para os entusiastas dos livros, pareciam estar trançados à linha geral da história – indispensáveis, portanto. Agora que o canal já está filmando as cenas finais da produção, é curioso olhar para trás e ver o que foi desconsiderado da adaptação. Preparamos então esta lista com os dez arcos que gostaríamos muito de ter visto na TV.

 

10. DORNE

Na quente Dorne, temos uma série de elementos narrativos que acabaram sendo deixados de ladoes – desde castelos majestosos como Tombastela (sede da Casa Dayne) e Paloferro (sede da Casa Yronwood) até a cidade de Vila Tabueira, que fica na foz de um importante rio, o Sangueverde. Os povos ribeirinhos desta região vivem em jangadas, pescando, fazendo música e desenvolvendo artes da cura.

Nessa terra, Martin escreveu cenas para Arianne Martell, Quentyn Martell, Gerold Dayne, Arys Oakheart e tantos outros personagens que jamais foram escalados para a série. Dorne é um dos reinos mais interessantes de Westeros, contando com um elenco moderno de mulheres participando ativamente da história. Devido a sua herança roinar, o povo dornense é mais avançado em questões sociais importantes, como o protagonismo das mulheres no direito de sucessão, o status social de amantes e proles bastardas e sua cultura sexual sem tabus, em comparação ao restante dos Sete Reinos.

Arianne Martell e Quentyn Martell são dois personagens cujos pontos de vista fazem parte da narrativa George R.R. Martin, mas cujas histórias não foram retratadas na adaptação televisiva. Há também o fato de que Oberyn teve filhas com heranças étnicas, personalidades e motivações diversas. Muito disso poderia ter sido mostrado em Game of Thrones.

 

9. O NINHO DA ÁGUIA

Lar da Casa Arryn, o majestoso Ninho da Águia e as terras do Vale se tornam a morada de Sansa Stark – agora sob o pseudônimo de Alayne Stone – em O festim dos corvos. Ali descobrimos como o povo daquela região se prepara para o inverno iminente, enquanto Sansa aprende aos poucos as motivações de Petyr Baelish e, no processo, as suas próprias. Indo muito além da esquisita relação que Mindinho estabelece com Sansa, vemos a garota se relacionar com personagens interessantíssimos como Lady Myranda Royce, Harrold Hardyng e Mya Stone – bastarda de Robert Baratheon.

 

8. SENHORA CORAÇÃO DE PEDRA

Criatura um dia conhecida como Catelyn Stark, Coração de Pedra é a senhora que lidera o bando de foras-da-lei que faz justiça com as próprias mãos nas Terras Fluviais. A morte mudou Catelyn, e agora ela é consumida pelo desejo de vingança contra aqueles que machucaram sua família. Coração de Pedra enforca homens associados aos Freys, Boltons ou Lannisters, mesmo aqueles inocentes ou apenas crianças. Seu corpo possui aparência assustadora, e ela parece ser dor e ressentimentos encarnados.

A ausência dessa personagem em específico é, de longe, a mais lamentada pelos fãs dos livros – e George R.R. Martin chegou a se posicionar contra o corte de Coração de Pedra de Game of Thrones.

 

7. SONHOS E PROFECIAS

Nos livros temos muitos personagens, estudiosos, profetas e sacerdotes que servem de ponte para que outros personagens – e, consequentemente, os leitores – explorem o desconhecido. São eles Quaithe, uma sacerdotisa de Asshai que aconselha Daenerys em seus sonhos; Moqorro, um sacerdote vermelho a serviço da fé de R’hllor; Aeron “Cabelo Molhado” Greyjoy, que realiza diversos rituais religiosos para os homens de ferro; Fantasma do Coração Alto, uma bruxa da floresta que revela visões do futuro e passado; e Cara-Malhada, o bobo da corte a serviço de Stannis que, por meio de de canções, conta histórias de natureza profética.

Além disso, Daenerys experiencia diversas situações sobrenaturais que se desenham em função de seus encontros com artes ocultas – como sua visita à Casa dos Imortais. Daenerys também parece ter muitos sonhos enigmáticos que podem revelar mensagens sobre sua jornada. Através dessas experiências, ela consegue ver cenas do passado de Westeros e muito da relação ambiciosa de sua família com profecias jamais cumpridas.

Vale lembrar que personagens como Melisandre, Bran e Jojen Reed estão constantemente tendo sonhos ou visões imagéticas de natureza desconhecida – mas muito interessantes.

 

6. MANCE RAYDER E A “PRINCESA” VAL

Martin criou uma personalidade aventuresca para o Rei-Para-Lá-da-Muralha, qualidade que confere demandas inusitadas que você só encontra lendo “As Crônicas de Gelo e Fogo”.

Durante os primeiros livros, Mance esteve presente em grandes acontecimentos no Norte, como a visita do rei Robert Baratheon a Winterfell, onde ele pede a Ned Stark para ser sua Mão do Rei. Por ser bastante hábil em se esgueirar pela Muralha e por Winterfell quando esteve exilado da Patrulha da Noite, ele chega a fingir ser um bardo em jantares e banquetes no castelo, sem que ninguém o reconheça.

Ao longo da história recente, seu personagem sofre um encantamento realizado por Melisandre, e os desdobramentos são muito curiosos. Mance tem a oportunidade de se disfarçar novamente de bardo, mas agora os Boltons têm domínio sobre o Norte – e o inverno chegou.

Ainda na Muralha, Mance Rayder conhece a selvagem Dalla, que vira sua esposa e mãe de seu filho. A irmã de Dalla, Val, torna-se uma importante personagem, fundamental para a narrativa sobre o povo livre que inclui mulheres em sua liderança.

Ainda sobre costumes, vale observar que o povo livre idealizado por George R. R. Martin conta com uma série de características bem peculiares. Cada clã tem suas especificidades, vestimentas e organização social: os Thenns, por exemplo, falam uma língua antiga e são governados pelo Magnar, que é visto mais como Deus do que homem entre seu povo. Os Cornopés, por sua vez, não usam nada nos pés, o que torna suas solas duras e escurecidas.

 

5. A CASA TYRELL

Nos livros, a Casa Tyrell apresenta os irmãos mais velhos de Loras e Margaery: Willas e Garlan.

Willas Tyrell é herdeiro de Jardim de Cima. Durante um torneio em que competia contra Oberyn Martell, Willas foi derrubado de seu cavalo. Tragicamente, o animal esmagou sua perna, deixando Willas aleijado. O incidente, inclusive, ajudou a alimentar a inimizade entre as Casas Tyrell e Martell. É descrito que Willas gosta de livros, e que pode ser mais preparado que o pai para governar.

Garlan Tyrell, o Galante, é um espadachim habilidoso. Cinco anos mais velho que seu irmão Loras, ele não foi seduzido pela ideia de glória e, portanto, é menos famoso. Garlan participou da Batalha do Água Negra, vestindo a armadura de Renly Baratheon para assustar os soldados do exército de Stannis. Garlan e sua esposa (Leonette Fossoway), são muito cordiais, tendo trocado palavras de afeto com Tyrion Lannister e Sansa Stark.

Loras Tyrell, nos livros, é membro da Guarda Real de Tommen Baratheon. É muito famoso e amado pelos plebeus. Margaery é muito jovem, e também admirada pelo povo e pela família. Possui uma extensa rede de amigos, damas e primas que a seguem e a servem todos os dias.

George revelou que Willas e Garlan terão papel importante nos próximos livros da saga, o que nos faz lamentar ainda mais sua ausência na série.

 

4. LOBOS E WARGS

A relação entre os Stark e os lobos é bastante íntima nos livros. George R.R. Martin já disse que todas as crianças Stark são wargs, ou seja, têm a capacidade de entrar na pele de seus lobos. Em maior ou menor grau, mas a quantidade de controle varia, segundo ele.

Sendo assim, vale relembrar cenas icônicas em que vimos os Stark se relacionando e se comunicando com seus lobos em “As Crônicas de Gelo e Fogo”.

Robb, por exemplo, utilizava o faro de Vento Cinzento para tomar decisões militares. Arya, deslizando para a mente de Nymeria, consegue matar pessoas, liderar alcateias e até ter um encontro com Catelyn após a morte da mãe. Jon Snow e Fantasma têm uma ligação muito natural, com Jon habitando a mente de seu lobo durante a noite para espiar o acampamento selvagem ou se livrar de armadilhas. Jon também consegue sentir o sabor da comida que Fantasma busca, assim como Bran faz com Verão.

Bran é, sem dúvida, o mais habilidoso na arte warg, conseguindo realizar o feito com humanos – como Hodor –, o que o classifica como um troca-peles. Arya também consegue entrar no corpo de um gato para espiar seu mestre, durante O festim dos corvos. Bran, no entanto, é o único Stark que demonstra suas aptidões na versão da série de TV.

 

3. COMO TREINAR SEU DRAGÃO

Quando Daenerys conquista Astapor em A tormenta de espadas, descobrimos que ela treinou Drogon para baforar suas chamas após receber o comando “Dracarys”. Nos livros, Dany remonta a época que aprendeu este truque com seu irmão, Viserys. Essa é uma das poucas técnicas de controlar dragões que vemos Dany colocar em prática durante a história.

Muitas outras, mesmo que ineficazes, acontecem depois disso nos livros. A série de TV, no entanto, contou com uma habilidade inata dos dragões de se comportarem conforme a história precisa que eles se comportem, retirando das belas e mágicas criaturas qualquer personalidade ou livre arbítrio.

Não acredito que qualquer lição sobre como treinar um dragão tenha que ser assertiva ou concluída com sucesso. Mas é elegante a ideia de ver os personagens ao menos tentando, como foi o caso de Quentyn Martell.

 

2. LUGARES, CULTURA, POLÍTICA

Um dos grandes feitos de Game of Thrones da HBO é a sequência de abertura, trabalho premiado de animação que ilustra com maestria o mapa de Westeros e Essos, parcialmente. Há, no entanto, uma série de locais conhecidos dos livros que não tivemos a oportunidade de ver na TV.

Além de todos os castelos do Norte, Vale, Campina, Terras Fluviais, Terras da Tempestade, Dorne e Terras do Oeste, temos reinos inteiros reduzidos a pequenos montes de terra.

É o caso das Ilhas de Ferro – que parecem ser apenas uma –, ou Dorne, que deveria ser apenas Lançassolar, pois Dorne é plural, e lar de outras famílias importantes do Reino, como os Dayne.

A própria Vilavelha criada por Martin possui uma série de especificidades que uma cidade rica e desenvolvida intelectualmente deveria ter: além de formar na Cidadela os futuros conselheiros, doutores, cientistas e especialistas de corvoaria para os Sete Reinos, possui ruas e mercados muito movimentados e procurados. É também onde fica o Septo Estrelado, antigo lar oficial da Fé dos Sete.

No outro continente, há uma série de marcos geográficos que Tyrion conhece durante seu exílio ao leste, como a cidade fantasma de Selhorys e a passagem dos Sofrimentos. A própria cidade de Volantis é muito diversa, com eleições anuais para controle do governo. O comércio de escravos é violento e enraizado por todo o continente, fazendo com que os inimigos de Daenerys sejam muitos e estejam em absolutamente todo o lugar.

Além disso, não vimos uma série de atividades culturais bastante expressivas nos livros, como o jogo de cyvasse e a alimentação local específica de cada região: desde Westeros, com Dorne e suas pimentas e carnes exóticas, até Essos e Meereen, com gafanhotos no mel e tantas outras iguarias.

Essos conta com fauna e flora bem específicas, exibindo animais belos, como elefantes, pelas ruas das Cidades Livres e da Baía de Escravos. Daenerys inclusive chega a adquirir um trio deles em Meereen.

 

1. MERRECA

Merreca é uma anã que trabalhava como pantomimeira ao lado do irmão, Oppo. Ele acaba sendo assassinado por conta da busca de Cersei por Tyrion – o que gera uma caça a qualquer tipo de anão em busca da recompensa da rainha. Eventualmente, Tyrion e Merreca se encontram e viram parceiros de viagem, enfrentando juntos uma série de infortúnios nas Cidades Livres e na Baía dos Escravos.

Merreca faz com que Tyrion lembre-se constantemente de sua condição de anão, o que pode tornar o personagem alguém muito consciente de seu papel no mundo – ou ainda mais ressentido e sedento por poder, vingança e justiça.

Saberemos apenas nos próximos livros o desdobramento desta relação. Estamos esperando, Martin!

 

BÔNUS: JOVEM GRIFF

A impossibilidade de retratar a vastidão do mundo criado por George R.R. Martin acabou sendo refletida na exclusão do personagem Jovem Griff, um dos pretendentes do Trono de Ferro nos livros, que passou anos em exílio aos cuidados de um time invejável de educadores nas Cidades Livres. Na história, o garoto de cabelos azuis acaba esbarrando com Tyrion no meio do caminho, mudando o curso de sua história – e também da história dos Sete Reinos.

Quando pensamos em Jovem Griff e seu mentor Jon Connington, personagem cujo ponto de vista faz parte da narrativa do livro, é natural perceber que é de fato um trabalho minucioso buscar inserir todos os detalhes dos livros de “As Crônicas de Gelo e Fogo” nas temporadas da série. São muitas tramas, muitos arcos, muitos personagens. Cenas pequenas e personagens grandiosos parecem ser igualmente importantes – tudo importa.

Mas há apenas um lugar onde você pode encontrar isso, e este lugar é o material idealizado por Martin. Se você já leu todos os livros e gostou deste conteúdo que preparamos, fica a dica: leia novamente! Quando o livro novo chegar, tenho certeza de que vai querer estar com a memória fresca para acompanhar todas essas narrativas.

E você, se lembra de algum arco importante que gostaria de ter visto ilustrado em Game of Thrones da HBO? Comente!

 

Ana Carol Alves foi editora do o site Game of Thrones BR e agora está à frente do projeto Gelo e Fogo (www.geloefogo.com). Mora em São Paulo e atualmente estuda música e dramaturgia. Escreve sobre Game of Thrones desde 2011 e acredita que somos todos cavaleiros do verão – e o inverno está chegando.


Compartilhe


Comentários